A Wikipedia de 1650

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Vamos para a Europa do Século XVII…

Certo dia escutamos falar de um grupo de idealistas que desejam difundir o conhecimento e torná-lo acessível a todas as pessoas. Seus idealizadores batizaram a iniciativa com o nome (estranhíssimo para a época) de Wikipedia. Achando que se trata de um modismo adolescente passageiro, a comunidade e as autoridades os deixam em paz.

russia 1700

Quadro de Vladimir Zhdanov

São principalmente jovens que, no tempo livre, se reúnem para compartilhar conhecimentos e difundi-los. O grupo não impõe restrições quanto a religião, sexo, idade, origem, nem está ligado às escolas, paróquias, príncipes ou autoridades locais. Se encontram em lugares informais, variados, e são muito receptivos a pessoas novas. Não exigem afiliação ou juramentos. Esta flexibilidade vai atraindo curiosos. Logo, o grupo se espalha para além dos limites da comunidade, formando uma pequena rede e núcleos. Não pense que se trata de um movimento de massa. Contam-se 3 ou 4 em cada vilarejo mas, no total, chegam às dezenas ou centenas. Vez por outra, provocam alguma desconfiança mas, como seu objetivo não é subverter a ordem, eles se ajustam bem às comunidades onde estão.

"Taverna" de David Teniers

“Taverna” de David Teniers

A comparação mais próxima que podemso fazer deste grupo é com uma irmandade ou fraternidade. Com a diferença que eles não se formaram para pregar novos ideais, nem procurar conhecimentos proibidos, nem montar sociedades alternativas ou tomar o poder. Por isso não precisam agir às escondidas. O grupo passa relativamente despercebido e nem se parece com um “grupo” propriamente falando. Eles se preocupam em difundir conhecimentos úteis para o cotidiano das pessoas. Aprendem e ensinam noções básicas de saúde, alimentação, cultivos, técnicas artesanais, música, dança, teatro, informações gerais, notícias etc.

Como estamos no Século XVII, 9 em 10 pessoas não sabem ler. Por sinal, a leitura é desnecessária, a não ser para o Alto Clero, que está muito distante dessas pessoas comuns. Mesmo os nobres raramente lêem e compensa pagar alguém que o faça sob demanda do que dar-se ao trabalho de aprender. Alguns poucos comerciantes e escriturários fazem uso da leitura para questões específicas. Por isso, alguns membros da Wikipedia são alfabetizados. Naturalmente, a parte esmagadora da informação que circula pela Wikipedia de 1650 é transmitida oralmente. Eventualmente, alguns membros se atualizam por cartas. Em poucas ocasiões, aguardadas ansiosamente por todos, um membro alfabetizado lê determinada passagem a um grupo de 5 ou 10 pessoas.

Livros eram artigos acessíveis apenas a uma minoria abastada, raramente no idioma popular. Os pensadores daquele tempo escreviam em Latim. Por sorte, um ou outro componente da Wikipedia tinha amizade com estudantes das raras universidades existentes. Através das conversas informais, recebiam algumas noções do que se aprendia naquelas escolas. Ainda que precariamente, eram informações valiosas de se compartilhar nas comunidades, até então desinformadas sobre o que discutiam as grandes mentes daquele tempo. Aguardava-se semanas por alguém que lhes trouxesse informações.

Os membros mais ativos da Wikipedia alcançaram uma cultura geral boa em relação aos visitantes eventuais. Têm, na bagagem, noções de Álgebra, Gramática, Teologia, Astronomia, Direito, Medicina, Literatura etc. Não chegam a compor uma elite intelectual, como as existentes nas universidades, mosteiros e palácios, mas já se destacam na comunidade local e ficam a par dos rumores, polêmicas e últimas descobertas da época.

galileuDentre os rumores, um dos participantes traz notícias sobre um tal Galileu Galilei, condenado ao exílio domiciliar após afirmar que o Sol está parado e a Terra se move em torno dele. Tal ideia não recebe atenção, afinal é notadamente absurda. Qualquer pessoa percebe que estamos parados e o Sol gira em torno de nossas cabeças. Ter recebido apenas a prisão domiciliar foi uma demonstração de bondade da Inquisição, já que a pena para quem difunde a ignorância, nesta época, é a tortura confessional seguida da purgação da alma na fogueira. Portanto, o livro de Galilei não pode ser bom. Para começo de história, foi escrito em Italiano ao invés de Latim. Além do mais, foi proibido pelo Index da Igreja, que era o centro mais importante de produção de saber da época. Os argumentos sobre o movimento da Terra em torno do Sol eram tão ruins que nem mereceram interesse da Wikipedia. O que provocou mais curiosidade foi como Galileu Galilei conseguiu enganar a Casa de Médici, tendo sido sustentado como Matemático e Filósofo pela família mais poderosa da Itália por anos. Uma prova de que o misticismo e a superstição pode atingir a todos. O assunto circulou na Wikipedia sob a denominação de “crendices” e seus membros colaboraram para que absurdos como o heliocentrismo não poluíssem as mentes dos pobres camponeses daquele tempo.

copérnicoAlguns anos depois, outro membro traz algumas informações de segunda mão sobre o trabalho de Copérnico, comentadas por um astrônomo que fez visita à família. Ele falava sobre o modelo copernicano de Universo, no qual o Sol era colocado no centro e, em torno dele, giravam os 6 astros errantes e a Terra. O astrônomo falou com tal entusiasmo que chegou perto de persuadir esse wikipedista. Comentou sobre as luas que Galileu viu ao redor de Júpiter, sugerindo que nem tudo girava em torno da Terra. Comentou sobre as fases solares de Vênus, sugerindo que este orbitava o Sol. Comentou sobre as marés, que sugeriam que a Terra se movimentava.

geocentrismo

de Bartolomeu Velho (1568)

Com uma mistura de chacota e irritação, alguns membros da Wikipedia se manifestaram. O livro de Copérnico era ainda mais antigo do que o de Galilei, e também foi desaprovado pela Igreja. De Júpiter e Vênus não havia fontes confiáveis, a não ser o relato do próprio condenado, utilizando um instrumento que ele mesmo construiu (“- É mais provável que o telescópio esteja com problema do que a Terra inteira esteja se movendo”, afirma convincentemente outro membro). Sobre as marés, Ptolomeu já havia mostrado que elas seguem as fases lunares. Tempos depois, menções de passagem sobre outras conjecturas de Diego Zuñiga, Johannes Kepler, Tycho Brahe eram trazidas à tona, as quais eram respondidas pelo coro das vozes da Wikipedia: tratavam-se de superstição, já que “a maioria dos pensadores da época não aceita o heliocentrismo como uma teoria válida”. Um terceiro wikipedista ouviu dizer que o modelo de Universo aristotélico não dava conta de calcular corretamente a órbita dos planetas, e que ocultamente alguns astrônomos já utilizavam para fazer seus mapas celestes. Mas como os membros da Wikipedia não eram, eles próprios, matemáticos, não levaram a sério este assunto.1


Acredito, portanto, que o cidadão médio como eu e você dificilmente aceitaria argumentos a favor do heliocentrismo em 1650. Consequentemente, uma imaginária “Wikipedia” daquela época tampouco se mostraria favorável à ideia. Entretanto, teorias sobre a Terra circular em torno do Sol já eram cogitadas com seriedade por alguns astrônomos Europeus no século anterior, como aponta a obra de Nicolau Copérnico sobre A Revolução das Órbitas Celestes (1543). O fato é que esta “revolução” transformou, em princípio, apenas o trabalho de alguns estudiosos. Praticamente quatro (!) séculos depois, o escritor Arthur Koestler ainda se referiria a ele como “o livro que ninguém leu”2.

heliocentrismo

de Andreas Cellarius (1661)

Embora errônea a afirmação,3 não deixa de ser verdadeiro que descobertas daquele naipe circulavam na condição de pequenas evidências cumulativas, entre alguns pensadores da época. Aparentemente, elas só viriam a ser aceitas pelo senso comum europeu no Século XIX, gradualmente, conforme algumas escolas passaram a discutir o assunto, admiti-lo e abandonar o geocentrismo.4

É tentador a pessoa incompreendida buscar se comparar a visionários da história, vítimas de intolerância. Essas comparações são traiçoeiras e não quero alimentar esse tipo de analogia com a Parapsicologia. É muito fácil, com os olhos de hoje, vermos Galileu como um gênio incompreendido. É até confortante imaginarmos que conseguimos reconhecer algo que uma geração inteira não reconheceu. O problema é não percebermos que, se estivéssemos em 1615, possivelmente nos juntaríamos ao coro dos que o condenaram, pois seríamos produtos daquele tempo.

Relógio Astronômico de Praga

Relógio Astronômico de Praga

Se fôssemos pessoas comuns do Século XVII, não teríamos contato com praticamente nada que falasse em favor da Terra girando em torno do Sol. Pelo contrário, tudo e todos nos levariam a considerar óbvio que o oposto era verdade. Apenas os tempos longos da História foram capazes de atestar os erros e acertos de Galileu. Não por uma propriedade mágica do tempo, mas por acúmulo de pesquisas favoráveis e mudanças sócio-políticas que ajudaram a desestabilizar o poder eclesiástico.

O mesmo ocorre com a Parapsicologia. O tempo, o trabalho paciente e as mudanças culturais irão moldando, com o tempo, o que é aceitável e o que é inaceitável em termos das alegações psi. Aceitemos que há um leque de possibilidades: em um extremo, as pesquisas parapsicológicas estariam completamente erradas; em outro extremo, completamente certas. Possivelmente a realidade está em algum lugar no meio destas duas. E possivelmente não saberemos das descobertas conforme elas ocorrem, mas décadas depois, conforme elas são absorvidas pelo senso comum.

Este ensaio foi uma introdução sobre o tema que pretendo tratar na série wikipediocracia,5 termo que alguns parapsicólogos como Dean Radin e Etzel Cardeña também utilizam para denunciar um viés antiparapsicológico que toma conta da Wikipedia. Algumas páginas na Língua Portuguesa são ainda mais demeritórias do que as em Inglês, apresentando assuntos diretamente como “pseudociências”, atribuíndo a fontes que não afirmam tal coisa e suprimindo fontes que afirmam o oposto.6 Seus editores acreditam, piamente, que estão combatendo a superstição mas, a meu ver, acabam fazendo um papel de censores, mais do que debatedores, esforçando-se para desmerecer a iniciativa em si de se pesquisar as hipóteses espiritualistas. A tese principal deste ensaio é que, se a pesquisa psi tiver alguma consistência, ela não será citada pela Wikipedia do momento, já que esta não é uma síntese da produção científica mais recente, mas uma leitura da ciência feita por pessoas relativamente leigas no que falam.7

Abaixo, meu comentário deixado na página específica da Wikipedia onde observei o problema, que pode ser visualizada neste link. Se você também acha que a Wikipedia merece algumas revisões, faça seu papel, afinal de contas, ela é “a enciclopédia livre que todos podem editar”.

wikipedia-logohttps://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o:Journal_of_Scientific_Exploration
De acordo com o histórico de edições, esta página foi criada em 25/09/2015, por “Ixocactus”, informando tê-la criado ao traduzir o verbete da wiki em Inglês (https://en.wikipedia.org/w/index.php?oldid=650880759). Entretanto, observo que o tradutor adotou um viés pessoal forte, quando usou o termo “pseudociência” no lugar de “fringe science” (normalmente referido, em Português, por “ciência de fronteira” ou “ciência de borda”). No mesmo dia, o usuário “Tenepes” revisou, alterando “pseudociências” para o estrangeirismo original “fringe science”. A alteração foi rejeitada por “Vanthorn”. Ambos fazem novas modificações numa disputa que termina com a manutenção do termo “pseudociências”.
O que observo é que não houve fundamentação para tanto pois (1) não foram apresentadas referências bibliográficas, (2) não se fundamenta o motivo na discussão sobre a página, e (3) o termo “pseudociência” não se justifica como uma tradução da página original em Inglês. Portanto, fica a impressão que os usuários preferiram utilizar a Wikipedia para expressar suas visões pessoais sobre o referido periódico, ao invés de aceitar o uso de um termo mais neutro, como fizeram os editores anglófonos. Acrescento, ainda, antes que se use como argumento a seção “Recepção Acadêmica” do mesmo verbete, que este tampouco justifica o uso do termo “pseudociência”, pelos seguintes motivos: (1) simplesmente uma má recepção acadêmica (se é isso que se quer argumentar) não é sinônimo de um trabalho pseudocientífico; (2) os argumentos para sustentarem uma má recepção acadêmica são trechos retirados de (A) uma revista não acadêmica – a Skeptical Inquirer – menos conceituada, menos referida nas bases de dados, e com menos acadêmicos em seu corpo editorial do que o Journal criticado; (B) uma frase de um jornalista; (C) meia frase informal de um psicólogo clínico. Nenhuma das frases foi veiculada em periódico acadêmico, tampouco foi parte de um trabalho de pesquisa mais amplo, e sequer seus autores são acadêmicos profissionais. Aparentemente, os editores do verbete estão fazendo o “cherry picking” para tentar, de qualquer maneira, desacreditar o Journal of Scientific Exploration. Penso que uma abordagem mais neutra e equilibrada seria mais recomendável. Penso, ainda, que o anonimato dos editores também contribui para que se sintam pouco exposto e pouco responsabilizados pelos textos que escrevem, e o ônus de eventuais exageros acaba pesando sobre a Wikipedia. Atenciosamente. Flávio Amaral.


Última atualização: 13 out 2016

Notas

  1. Séculos depois, ainda se argumenta a favor do geocentrismo, baseado em que: (1) a própria Teoria da Relatividade explica que não há nenhum centro absoluto sendo, portanto, uma questão de preferência definir qual é o centro; (2) o heliocentrismo contradiz a Bíblia e, assim, permite que se contradiga a Bíblia em outros assuntos, algo inadmissível; (3) somos especiais e não seríamos especiais se Deus não nos tivesse colocado no centro do Universo. Ver, p. ex. https://www.youtube.com/watch?v=Rwx7bYEUIF4. De fato, com a computação atual é relativamente fácil criar um modelo de Universo com a Terra imóvel no centro: https://www.youtube.com/watch?v=waexG16WZrE.
  2. Koestler, A., & Butterfield, H. (1959). The sleepwalkers: A history of man’s changing vision of the universe (p. 13). London: Hutchinson.
  3. Ver Gingerich, O. (2004). The book nobody read: chasing the revolutions of Nicolaus Copernicus. Bloomsbury Publishing USA.
  4. Ver Dobrzycki, J. (1972). The reception of Copernicus’ heliocentric theory (Vol. 1). Springer Science & Business Media.
  5. Em alusão à página com o mesmo nome, http://wikipediocracy.com/
  6. O Journal of Scientific Exploration, por exemplo, tratado, na página em Inglês, como um periódico de “ciências de fronteira”, foi traduzido erroneamente como um periódico de “pseudociências” para a página em Português. As tentativas de mudança foram imediatamente rejeitadas como se pode observar pelo histórico de revisões, e nenhum esforço foi feito no sentido de fundamentar essa posição preconceituosa. O mesmo ocorre com o verbete Parapsicologia, “frequentemente referida como pseudociência” segundo a Wikipedia em Inglês, mas já taxativamente “uma pseudociência” segundo a Wikipedia em Português, utilizando como referência um único artigo que incrivelmente não faz esta afirmação em lugar nenhum!
  7. Utilizando novamente a página em Português do Journal of Scientific Exploration como exemplo, a mesma foi criada a partir da tradução da versão em Inglês. Mas seu criador pode ser considerado bastante leigo em tradução, conforme atesta o próprio currículo Lattes que disponibilizou. O mesmo é Mestre em Biologia. O segundo usuário sequer identifica-se. O que podemos aprender de seu perfil é que fala inglês intermediário. É destas duas pessoas que deriva a informação de que um periódico revisado por pares, com 30 anos de existência e mais de 20 doutores em seu corpo editorial é uma “revista de pseudociências”.
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2 comentários

  • Anderson Maia

    O Rupert Sheldrake já denuncia esta ditadura da Wikipedia há algum tempo. Quem navega nas redes sociais russas verá o repudio deles pela Wiki,eles a chamam de a Nova Inquisição…

    • Bem lembrado Ander. Sheldrake faz um belo trabalho na divulgação científica da Parapsicologia, tornando-a acessível sem perder a consistência e seriedade. Engraçado que alguns céticos que nunca publicaram na Nature ficam reclamando que se Sheldrake fosse sério teria publicado na Nature hehe.

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