Conhecimento

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Este artigo é a parte 1 de 1 na série O Conhecimento Humano

É importante situar alguns conceitos básicos relacionados ao conhecimento humano, pois os utilizo com frequência neste blog. Em trabalhos especializados você encontrará definições mais elaboradas ou mesmo diferentes das trazidas aqui. Isso não é problema. Conceitos não são exatamente “certos ou errados”. São maneiras de situar uma questão. Seu mérito está na capacidade de esclarecer ou não o tema em pauta e orientar sua investigação.

1. Conhecimento

Comecemos pelo próprio conceito de conhecimento. Na Epistemologia clássica, o conhecimento pode ser entendido como uma crença verdadeira e justificada.

Crenças…

Podemos chamar de crenças todo tipo de afirmação à qual damos crédito, isto é, que consideramos válida, verdadeira. Gosto desta definição pois ajuda a quebrar a noção pejorativa que nosso senso comum formou sobre a palavra (quando alguém quer atribuir um valor menor ao que pensamos diz: “- ah, estas são suas crenças”). Trata-se de um preconceito pois tudo que consideramos verdadeiro, registramos na forma de uma crença.

…verdadeiras…

Mas algumas crenças podem ser “verdadeiramente verdadeiras” e outras podem ser falsas. Normalmente, só irei colocar uma crença em dúvida se ela representar uma ameaça à minha experiência de vida. Enquanto isso não acontecer, posso até buscar explicações para manter a crença, caso isso assegure minha estabilidade. Neste momento, por exemplo, acredito que minha casa está segura: ninguém a está invadindo, não há vazamento de gás, não há torneiras abertas, não há curto-circuitos, o ferro de passar não ficou ligado, nenhuma panela foi esquecida sobre o fogão aceso etc. São crenças e, como tenho motivos para não as questionar, permaneço com elas. Questionar essas crenças me obrigaria a verificar se estou certo, dificultando minha rotina. Mas reconheço que, hipoteticamente falando, há um risco de que eu esteja errado. Em resumo, aceitamos idealmente que algumas crenças sejam verdadeiras e outras sejam falsas.1

…justificadas

Além de ser verdadeiro, o segundo quesito do conhecimento é que ele seja justificado. Por justificado me refiro a motivos ou constatações que permitam concluir que uma crença é verdadeira e não me permitam concluir que ela é falsa. Seguindo o exemplo acima, três formas de verificar a segurança da casa são: (A) revisar mentalmente as precauções tomadas; (B) telefonar para um vizinho; ou (C) retornar ao local para verificar pessoalmenteCada um destes procedimentos tem uma dificuldade específica e oferece um grau de certeza menor ou maior de que a casa realmente esteja a salvo. Se sua memória não está boa, você pode preferir telefonar para o vizinho. Se não confia no vizinho, pode preferir checar pessoalmente. Ao adotar esses procedimentos você terá encontrará evidências mais fortes para afirmar ou desconfirmar sua crença inicial (“a casa está segura”).

Esta ideia pode ser esquematizada pela figura abaixo, na qual conhecimento é representado pelo conjunto menor:

Consequentemente, conclui-se que existem crenças que podem ser verdadeiras mas não foram verificadas. Algo como um “chute” ou “palpite” correto. O simples fato de uma crença ser verdadeira não a qualifica como conhecimento.

Além do mais, concluímos que conhecimento é melhor entendido como processo, não como estado. Ou seja, não faz tanto sentido falar que “conheço” algo, sendo mais preciso falar que “acredito” em algo. É uma palavra melhor empregada no infinitivo (“conhecer” algo, ou seja, realizar um ato para chegar mais perto da verdade). No exemplo acima, o conhecimento ocorre durante o trabalho de constatação sobre a verdade ou falsidade de uma crença. Encerrado o processo, o resultado do conhecimento é uma crença um pouco mais correta do que a anterior, até que ela venha a ser questionada novamente.

É sobre este processo que falarei no próximo artigo, para conceituar a ideia de ciência.

Resumo

Conhecimento pode ser definido como o processo através do qual uma crença pode ser verificada (ou falsificada).

Notas

  1. Daí nasce o ramo da Filosofia que denominamos Lógica.
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