Experiência fora do corpo (histórico)

Luigi Schiavonetti
Este artigo é a parte 2 de 3 na série Experiência fora do corpo

Histórico

Nas mais diversas épocas e cultura encontram-se relatos de pessoas que, em certo momento, sentiram-se claramente fora do próprio corpo. Ainda que estas experiências variem imensamente, algumas características são bastante comuns, entre elas, terem ocorrido espontaneamente durante o sono, em um estado de consciência parecido com o cotidiano, onde a pessoa retém a percepção e o questionamento sobre o que está acontecendo e sabe não se tratar de um simples sonho. Em muitos casos experimenta-se a sensação de decolar e “desgrudar-se” do corpo, ficando este deitado na cama enquanto a pessoa voa para outros ambientes. Algumas pensam que morreram. Outras encontram seres, “anjos da guarda”, entidades de feições diferentes e também parentes mortos, podendo estabelecer ou não comunicação com eles.

por Luigi Schiavonetti, 1808 | The Soul Hovering over the Body, Reluctantly Parting with Life, do poema The Grave, de Robert Blair

por Luigi Schiavonetti, 1808

Popularmente conhecida como viagem astral (outros termos como projeção consciente, experiência fora do corpo, viagem extracorpórea entre outros costumam ser utilizados como sinônimos), o assunto exerce grande apelo, não apenas por pelo fascínio da experiência em si, mas também por estar diretamente relacionada ao problema da imortalidade da alma, uma questão tão antiga quanto a própria Humanidade.

platao pequenoNo Século IV a.C., Platão escrevia, no diálogo socrático A República, sobre Er, o Armênio, recolhido em combate e dado por morto, retornando à vida após 12 dias, relatando que sua alma viajara para fora do corpo e conhecera lugares divinos, onde as almas são julgadas pelo bem ou mal que fizeram, por onde transitavam as almas que vinham da Terra para o Céu, e outras, do Céu para a Terra. Muitas se conheciam, se cumprimentavam e trocavam perguntas sobre o que passava do outro lado. Esse trânsito parecia ocorrer várias vezes, e as almas inclusive escolhiam como nasceriam na próxima vida – algumas optando por nascerem na forma de outras animais, e vice-versa. Er, o Armênio, é retratado na condição de um “mensageiro”, tendo os espíritos lhe ordenado que observasse tudo para depois relatar quando retornasse à vida 1.

Plutarch_head_onlyQuase 5 séculos mais tarde, Plutarco relata a história de Arisdeu de Soli. Após viver de maneira viciosa e depravada, acidentou-se, sendo dado por morto mas ressuscitando após 3 dias, durante o próprio funeral. Após este episódio, Arisdeu adota o nome Thespesios e, para espanto da comunidade, tornou-se o homem mais honesto, dedicado e escrupuloso da Cilícia. Ao ser perguntado sobre o motivo dessa mudança, Arisdeu relata sua viagem para fora do corpo, visitando ambientes astrais e conhecendo as almas do Além. Observar o sofrimento e as consequências daqueles que praticam o mal, ao passarem para “o lado de lá”, provocou em Arisdeu a vontade de tornar-se um homem correto 2.

Séculos mais tarde, em 1832, um dos mais prolíficos e aclamados escritores da História, Honoré de Balzac, escreve Louis Lambert, um conto com características autobiográficas (o personagem, Louis Lambert tem uma história de vida muito parecida com a do próprio Balzac). Em certa passagem Lambert relata “um dos mais extraordinários incidentes (…) pois talvez tenha sido um ponto de viragem em sua carreira científica”. Reflete sobre ter visitado, na adolescência, “em um sonho”, um local que viria a conhecer posteriormente:

balzac“Se eu estive aqui enquanto dormia em meu quarto, isto não significa uma separação completa do meu corpo e meu ser interior? Isto não prova uma faculdade desconhecida de locomoção do espírito com efeitos semelhantes à da locomoção do corpo? Bem, e se meu espírito e meu corpo podem ser separados durante o sonho, por que não deveria eu insistir em separá-los de igual maneira durante a vigília?” 3

No diálogo de Platão ou nas reflexões de Plutarco, o tema da saída fora do corpo é quase tomado como algo “natural”, e aparece como um recurso para transmitir uma visão de mundo (a existência do mundo espiritual) ou uma prescrição moral (o que se faz na Terra se colhe após a morte, no Além). Platão está preocupado em produzir uma demonstração filosófica da existência do mundo espiritual. Plutarco está preocupado em construir um discurso sobre a necessidade de se fazer o bem.

Já Balzac, refletindo outra cultura e momento histórico, trata a experiênca em si como algo extraordinário, e pergunta como pode o ser humano ter dedicado tão pouca atenção à mesma. Herdeiro de um período humanista, Balzac pergunta-se o quanto aquilo não revela incríveis poderes do ser humano. Diferente de Platão e Plutarco, Balzac descreve a curiosidade de saber se o homem pode provocar esta separação pela própria vontade, e se esta separação não deveria ser, por si, objeto da ciência.

Em fim, são apenas exemplos registrados por pensadores, ao longo da história do pensamento ocidental, onde se aceita a ideia da separação (objetiva) entre o corpo humano e sua essência, sua “atividade mental” (Balzac) ou sua “alma/espírito” (gregos).

Pesquisa científica

No século XIX, com o desenvolvimento da ciência moderna, a EFC também se transforma em objeto de interesse dos estudiosos da época, unidos em torno de disciplinas como a Pesquisa Psíquica (Psychical Research) e a Metapsíquica. Os primeiros experimentos foram desenvolvidos, bem como o estudo de relatos, focados em casos onde o sujeito pesquisado parecia ser capaz de identificar informações à distância. E as tentativas de explicação científica variavam entre a possível ida do indivíduo, “em espírito”, para outro lugar, distante do próprio corpo, onde captava a informação, ou então a explicação concorrente, segundo a qual o indivíduo não teria saído do corpo, mas sim captado a informação por algum meio telepático ou clarividente 4

Estas experiências também são objeto de algum interesse das ciências neurológicas e psicofisiológicas. Por contrariar a visão de mundo mais aceitável por nosso senso comum, a viagem astral também foi/é considerada, por muitos, como alteração nos sentidos físicos. Isto não necessariamente significa estarem relacionadas com distúrbios, mas apenas que a hipótese psicológica está longe de ser descartada.

Também, a partir de então, se procuraram fazer experimentos que detectassem alguma presença objetiva que corroborasse a hipótese de um “corpo espiritual”, utilizando os recursos tecnológicos disponíveis, por exemplo: a fotografia, a física dos gases ou eletromagnetismo, tentando captar a interferência deste “duplo” nos aparelhos, chapas e instrumentos sensíveis 5.

Já em meados do Século XX, estudos concentram-se em verificar e comparar a eficácia de técnicas de indução da EFC através de, por exemplo, hipnose, concentração mental e outras técnicas. Outros estudos buscavam comparar as características observadas nos relatos da EFC com aquelas de alucinações, procurando compreender as semelhanças e diferenças entre esses dois tipos de experiências.

Também foi um período de realização das levantamentos de opinião pública (surveys) procurando conhecer as características das pessoas que afirmavam já ter tido a sensação de estar fora do próprio corpo. Além disso, a tecnologia de monitoração corporal também passou a ser utilizada para verificar o funcionamento do organismo (batimentos cardíacos, ondas cerebrais, respiração, tônus muscular, movimentos oculares) durante os períodos em que os indivíduos estudados informavam ter passado por EFCs 6.

experiencia fora do corpoA partir destas pesquisas e acúmulo de dados, alguns estudiosos começaram a considerar a possibilidade de que a EFC fosse um fenômeno objetivo ou, no mínimo, algo diferente de uma simples impressão psicológica. Entretanto, qualquer explicação objetiva para a projeção fora do corpo ainda estava longe de ser possível. Dentre as reflexões e discussões científicas da época estavam, por exemplo, se haveria de fato um corpo mais sutil que se desdobrava (o que na literatura popular recebe denominações como “corpo astral” ou “perispírito”), e também se a partir do fenômeno extracorpóreo é possível induzir alguma conclusão sobre a sobrevivência da alma (vida após a morte).

A partir das décadas de 1970 e 1980, modelos são desenvolvidos e testados para verificar características psicológicas dos indivíduos que relatam estas experiências desde, por exemplo, capacidade de atenção, inventividade e imaginação, estados alterados de consciência, traços de personalidade. Também foram pesquisados dados demográficos, características físicas e fisiológicas entre outras. Podemos ver com otimismo um crescimento do interesse no assunto por parte de outras especialidades – não somente a Parapsicologia – como também a Psicologia e demais Ciências da Mente.

EFC na cultura contemporânea

Além do interesse acadêmico, a viagem astral passa a captar cada vez mais o interesse popular. O chamado movimento New Age, a partir da década de 1960, demarcou um interesse crescente do mundo ocidental por assuntos relacionados aos “mundos espirituais”. Junto a isso, o Cristianismo foi cedendo espaço e perdendo o monopólio que possuía, até então, de determinar as crenças e o discurso relativo à espiritualidade. Internacionalmente, sucessos de bilheteria como Ghost (1990) marcaram uma época. Também no Brasil, em boa parte graças ao Espiritismo, o interesse popular pelo tema cresce a cada dia.

experiencia fora do corpo muldoon e carrington

EFC em Muldoon & Carrington (1929)

Livros populares sobre a EfC são escritos com frequência cada vez maior. The Projection of the Astral Body, de S. Muldoon e H. Carrington (traduzido em português como “A Projeção do Corpo Astral”), publicado em 1929, foi talvez o primeiro grande sucesso internacional sobre o tema. Nele se encontram algumas noções que recebem maior aceitação popular na busca de se explicar a EFC. Dentre elas, podemos citar:

  • A necessidade de experimentar ou vivenciar o fenômeno para convencer-se da sua realidade objetiva, para além da simples imaginação.
  • O objetivo primordial é o de ensinar como sair do corpo.
  • A existência de um corpo astral, que porta a alma no momento da EFC. Isto é, não é puramente a alma que se projeta – ela segue junto a um veículo espiritual mais sutil. Este corpo recebe, no Espiritismo, por exemplo, o nome de perispírito.
  • Há um cordão energético ligando o corpo astral ao corpo físico, mantendo ambos conectados, provocando o retorno do corpo astral, muitas vezes involuntariamente.
  • Este corpo astral é também um corpo dos desejos, formado não por matéria mas por emoções. Por este motivo as viagens astrais podem ser altamente emocionais.
  • Este corpo atua em uma dimensão também de características emocionais, ou seja, onde o estado emocional dá forma aquilo que se vê. Assim, muito do que se percebe na dimensão astral pode não ser, exatamente, parte daquela dimensão, mas sim formas-pensamento produzidas pelo próprio viajante astral.

 


Você tem alguma dúvida, ponderação ou curiosidade extra sobre a experiência fora do corpo que gostaria de discutir neste site? Deixe-nos suas ideias e questões aqui nos comentáros.


Resumo

A experiência fora do corpo (EFC) tem sido relatada ao longo da história, por vários povos e culturas. É um assunto de interesse tanto popular, artístico quanto científico. No meio científico, hipóteses são discutidas, não necessariamente autoexcludentes, tanto no sentido de um espírito “objetivo” que se destaca do corpo, quanto modelos explicativos puramente psicológicos, quanto outros no meio do caminho, como a presença de percepções psicológicas aliadas a percepções extrassensoriais. Além disso, as características demográficas e individuais das pessoas e populações que têm estas experiências também são alvo de estudos. Na opinião pública, há duas visões concorrentes: a de que a experiência é apenas “coisa da própria cabeça” versus a de que se trata de uma saída objetiva para fora do corpo.


Última atualização: 11 ago 2016

Notas

  1. Platão, A República, X, 614a – 621d.
  2. Plutarco, The Delay of the Divine Justice, Seção 22.
  3. Balzac, H. (1832/2012). Louis Lambert. Editor Jim Manis. Hazleton, PA: Pennsylvania State University, p. 33. Tradução minha
  4. Alvarado, C. (1989). Trends in the study of out-of-body experiences: An overview of developments since the nineteenth century. Journal of Scientific Exploration, 3 (1), 27-42.
  5. Ver. p. ex.: de Rochas, A. (1908). My experiments with M. de Jodko in 1896. Annals of Psychical Science, 7, 80-88. Durville, 1909 apud Muldoon, S.; & Carrington, H. (1929). The projection of the astral body. Londres: Rider & Co. Paternoster House.
  6. Alvarado, op. cit.
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