EFC: Qual o termo correto?

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Este artigo é a parte 3 de 3 na série Experiência fora do corpo

Desdobramento? Experiência extracorpórea? Saída do corpo? Projeção consciente? Viagem astral? Afinal de contas, QUAL É O TERMO CORRETO?

A priori, nenhum é correto. Mas fique tranquilo… nenhum é errado também.

Ops! Confundiu tudo?

Emoticon EFC dúvida

Vamos lá:

Acreditamos que as palavras são muito importantes e têm um poder de explicar as coisas. Na verdade, entretanto, elas não dizem absolutamente nada por si próprias. O seu poder é de evocar contextos.

Na comunicação, o contexto precisa estar claro, entre emissor e receptor, para que uma palavra seja bem empregada. Por isso, com frequência, precisamos definir claramente o que significa certa palavra, evitando que, através de uma mesma palavra, as pessoas estejam entendendo coisas diferentes.

Por exemplo, em suas leituras e conversas, você vai se deparar com as expressões acima (desdobramento, experiência fora do corpo, projeção consciente, saída extracorpórea, viagem astral) entre outras, sendo utilizadas de maneira equivalente, intercambiável. Isso não é um grande problema pois, grosso modo, as pessoas estão se referindo à “mesma coisa” – esta curiosa sensação de estar fora do próprio corpo físico.

Mas é importante refletir sobre a diferença entre esses termos, o que pode nos revelar mais sobre as visões de mundo que subsidiam a discussão. Isso nos permite compreender melhor o debate e as dúvidas que pairam sobre esse interessante assunto, e percebermos que, embora o termo utilizado pareça não importar, por trás de cada um existem concepções e entendimentos diferentes – até mesmo discordantes – sobre o que é a tal “experiência fora do corpo”.

Experiência fora do corpo (EFC)

Você já deve ter percebido que utilizo preferencialmente o termo experiência fora do corpo. Vamos destrinchar essa expressão. Ela nos informa, em primeiro lugar, que há uma “experiência”. O que isso significa?

Por exemplo, neste momento você está lendo este artigo. Veja que não dependo do seu depoimento para saber disso. É uma constatação que aceitamos como “objetiva”, ou seja, que independe do sujeito-observador ou do sujeito-observado. Por mais que você diga que está batendo um bolo de chocolate ou, por mais que eu queira acreditar que você está andando de bicicleta, tenho boas razões para deduzir que você está lendo este artigo.

Por outro lado, algo diferente acontece se eu quiser conhecer a sua experiência de leitura. Eu precisarei recorrer a você. Talvez possa até supor que você gostou ou não, observando sua expressão facial. Mas para ter mais profundidade, precisarei perguntar “- Como foi a sua experiência?” Compreendeu a diferença? Quando falo de experiência, estou me referindo à dimensão subjetiva do mundo, ou seja, altamente dependente do sujeito para ser conhecida.

efc garota dormindoEm bom português, ninguém pode reclamar se um sujeito informa que se sentiu saindo do corpo. As pessoas são livres para sentir o que quiserem. O termo experiência fora do corpo tenta ser mais “neutro”, aceitar que as pessoas têm a experiência – algo exaustivamente relatado ao longo da História – sem necessariamente se comprometer com esta ou aquela teoria explicativa de por que a experiência acontece. Resulta ser a expressão mais utilizada pelos pesquisadores do assunto nos periódicos científicos.

Projeção ou desdobramento

O termo projeção tem sido bastante utilizado por autores brasileiros nas últimas 3 décadas, devido à grande popularização do tema a partir da “Projeciologia“. Pode ser acompanhado por diversos qualificativos, a exemplo de: projeção astral, projeção fora do corpo, projeção da consciênciaprojeção lúcida. Esta noção ganhou popularidade a partir do clássico The Projection of the Astral Body, escrito em parceria entre o projetor Sylvan Muldoon e o pesquisador Hereward Carrington, em 1929, nos EUA.1

Como você pode imaginar, este termo foi cunhado a partir da ideia de algo que “se projeta” para fora do corpo. Muldoon deixa clara sua preferência por esta explicação, fundamentado pela observação de suas próprias experiências extracorpóreas e, naturalmente, também compartilhada por outros autores espiritualistas anteriores.

desdobramentoEsta expressão se alinha a outra, o desdobramento, proveniente do Francês, dédoublement, muito utilizado pela Metapsíquica nos séculos XIX e XX e, consequentemente, muito influente sobre o Espiritismo. Ambos, apesar das diferenças, giram em torno da ideia de um segundo corpo (“corpo astral” ou “duplo etérico”) que serve como veículo, desmembrando-se do corpo físico e carregando, consigo, o ser (espírito, essência).

Viagem astral

Por fim, a tão consagrada qualificação “astral”. Por trás desta palavra se encontra a noção de um lugar, no além, entre os astros, ou mais correntemente, uma “dimensão” para onde a pessoa estaria viajando durante uma saída do corpo.
portal dimensionalDerivado do termo “corpo astral”, expressão antiga e já utilizada, por exemplo, em 1929, no próprio livro de Muldoon, esta palavra expressa a noção de que existe um outro plano ou mundo, um “universo paralelo” para onde o viajante extracorpóreo se dirige. Na verdade são tentativas de explicar por que, numa experiência fora do corpo, certas leis da física parecem ser violadas, como atravessar paredes, portas e outros sólidos, ver mas não ser visto, ouvir mas não ser ouvido, viajar por longas distâncias a velocidades infinitas, sentir o tempo passar de modo anômalo, perceber acontecimentos premonitórios etc.

A título de curiosidade, uma procura rápida no mecanismo de busca Google Trends revelou que, de longe, as expressões mais procuradas, no Brasil, envolvem o elemento astral (“viagem astral”, “projeção astral”, “desdobramento astral” nesta ordem), seguidas por “desdobramento espiritual” e, quase imperceptivelmente, “projeção lúcida”. Notamos também um crescimento na procura pela expressão “projeção astral” e um declínio nas demais.

Outros termos (projeção consciente, experiência fora do corpo, projeção consciencial, não tiveram volume de busca suficiente para gerar o gráfico. Por outro lado, a situação se inverte no Google Acadêmico, onde o termo “experiência fora do corpo” é o mais procurado. Observo, também, que mesmo grupos mais antigos e tradicionais ligados à Projeciologia e que, portanto, utilizam mais o termo “projeção”, preferem utilizar o termo “experiência fora do corpo” em seus materais promocionais, possivelmente por ser um termo mais didático e compreensível.

Discussão

Tudo levado em consideração, temos, em resumo: (1) um evento, que é a sensação de estar fora do corpo e as diversas ocorrências e “aventuras” relatadas por quem a vivencia; (2) a explicação de que alguma coisa, ente ou substância, de fato sai do corpo e carrega, consigo, o indivíduo e; (3) a explicação de que se vai para algum lugar, plano, dimensão, universo paralelo, ambiente diferente do que entendemos como “mundo físico”.

Particularmente não defendo que as pessoas tomem por objetivo um fenômeno que é constatado de maneira subjetiva. Por isso, prefiro utilizar o termo experiência fora do corpo. Quando falo que tive uma “experiência”, estou falando de mim. Demonstro aceitar que, por ser uma experiência pessoal, não pretendo que ela sirva como evidência objetiva de que eu saí do corpo, ou que saí portando algum “veículo”, ou que fui para alguma “universo” diferente. Faço da experiência subjetiva um recurso para investigar a mim mesmo. Para mim, isto é o tão buscado autoconhecimento.2

Observo, com frequência, que os projetores não gostam que nos refiramos às suas experiências como subjetivas. Este receio é fruto da cultura materialista em que todos nós estamos mergulhados. A ideia de “objetividade” exerce um poder muito forte em nosso imaginário. Não por acaso, as “ciências exatas” têm grande influência sobre as “ciências humanas”. Quando ouvimos que algo é “subjetivo”, ficamos na defensiva, acreditando que estão nos considerando de loucos, fantasiosos ou indignos de crédito. Somos todos vítimas desse tabu.

Se digo, por exemplo, estou feliz, estou triste, estou surpreso, estou motivado, tratam-se de experiências subjetivas. Elas não são “menos reais” por serem subjetivas. Elas não são “menos verdadeiras” por serem “coisas da minha cabeça”. Mas se digo que saí do corpo, fico com tanto medo de ser considerado louco que logo quero convencer a todos que a experiência não era subjetiva, que foi um fenômeno objetivo. Digo que “foi real!”. Observe que, quando faço isso, estou impregnado do mesmo materialismo que critico nos outros. Continuo perpetuando a crença – mais popular do que científica – de que as coisas precisam ser objetivas – precisam estar fora de mim! – para ganhar o estatuto de “realidade” ou de “verdade”.

Presos por estas armadilhas de linguagem – a confusão que fazemos entre realidade, objetividade, veracidade, subjetividade, normalidade e saúde – buscamos algumas saídas. Tentamos resolver as coisas dizendo que “as pessoas precisam passar pela experiência” para aceitarem. Ao dizermos isso, confirmamos a ideia de que se trata de algo cuja constatação é subjetiva. Este é mais um motivo por que prefiro o termo experiência ao invés de projeção ou viagem astralEnquanto não se chega a um acordo sobre a questão da “projeção” ou da “outra dimensão”, pelo menos concorda-se que estamos falando de uma experiência.

Resumo

Termos como experiência fora do corpo (EFC), desdobramento, projeção consciente, viagem astral, costumam ser utilizados de maneira intercambiável para se referir a um mesmo acontecimento. Entretanto, por trás de cada um deles, existe um corpo teórico ou visão de mundo que importa conhecer. A EFC se refere à dimensão experiencial, vivencial, do fenômeno, e tende a ser mais neutra quanto a explicações sobre “por que” ou “o que” acontece, objetivamente. A ideia de projeção e desdobramento se originam da noção de que há alguma coisa que, de fato, sai do corpo. O termo astral é muito utilizado para respaldar a ideia de um outro mundo ou lugar para onde o indivíduo vai quando sai do corpo.

*Para uma discussão adicional, confira meu artigo sobre a diferença entre fenômeno e experiência.


Última atualização: 13 out 2016

Notas

  1. Traduzida para o Português na década de 1960, sob o título de “A Projeção do Corpo Astral”.
  2. Para citar como exemplo, no Journal of Exceptional Experiences and Psychology, 2013, Vol. 1, n. 2, p. 39, escrevi um artigo intitulado “My First Out-of-Body Experience”, onde utilizo minhas primeiras experiências fora do corpo como recurso para uma investigação autobiográfica.
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