Experiência fora do corpo

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Este artigo é a parte 1 de 3 na série Experiência fora do corpo

Introdução

A experiência fora do corpo ou EFC (no inglês, out-of-body experience, ou OBE) é a vivência ou percepção de encontrar-se em lugar diferente de onde está o próprio corpo.

Embora as EFCs variem imensamente entre si, elas também apresentam características comuns. Um relato típico de uma EFC seguiria mais ou menos assim:

experiencia fora do corpo“Deitei-me para dormir, no horário habitual. Senti os olhos pesando quando, após os primeiros indícios de sono, desperto inteiramente. Uma estranha vibração toma conta do meu corpo, embora este esteja imóvel. É como se esta vibração fosse simplesmente “elétrica”, uma energia fluindo por toda a extensão do corpo, sem qualquer tremor ou tensão muscular. Na verdade, me sinto inteiramente relaxado e quase não sinto os músculos. Escuto zumbidos na cabeça e uma estranha sensação de que estou me tornando leve e me separando do corpo. Começo a subir, como se fosse em espírito, vejo o teto se aproximando. Estou flutuando deitado e agora mudo para a posição ereta, como se uma força externa me comandasse nesse processo. Viro de frente para minha cama e vejo meu corpo ali, separado de mim, deitado. Por um instante, me pergunto se estou morto. Em um piscar de olhos, me sinto dentro do corpo novamente, completamente desperto. Tudo se passou com minha mente inteiramente acordada – nada que se pareça com um sonho. Levanto e vou buscar um copo d’água, surpreso com a experiência que acabo de ter.”

Características

Nem todos os elementos aqui descritos estão presentes em todos as experiências. Além do mais, várias experiências contêm elementos adicionais. Abaixo, procurarei descrever a EFC e detalhar as características usualmente mais relevantes:

  1. O indivíduo sente-se afastado e distante do próprio corpo. A experiência pode incluir um ou vários dos seguintes elementos: sensação de inércia, antigravitação, vôo, toques, temperaturas, imagens, sons, ideias e inspirações, vozes e comunicação, interagir com seres desconhecidos ou conhecidos, humanos ou não, atravessar paredes e corpos físicos, até observar eventos públicos e confirmados posteriormente.
  2. A primeira experiência costuma ser involuntária, bem como a esmagadora maioria das experiências relatadas. Indivíduos que se interessam pelo assunto costumam relatar algum sucesso, mesmo que pequeno, na tentativa de provocar a experiência voluntariamente, através de procedimentos que constituem, basicamente, no relaxamento e concentração mental.

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  3. Usualmente a experiência ocorre durante o repouso e sem motivo aparente, no início ou no meio de uma noite de sono normal. Em casos mais raros ou extremos, são relatadas EFCs durante operações cirúrgicas complicadas, ressuscitações, acidentes (conhecidas como experiências de quase-morte ou EQMs), durante a prática de exercícios (natação, corrida) ou mesmo durante uma caminhada normal.
  4. As experiências costumam ter durações breves, de poucos segundos ou minutos. Na maior parte das vezes, ocorrem no próprio quarto do indivíduo. Alguns questionários e enquetes verificaram uma correlação positiva entre a duração estimada da experiência e a distância estimada do corpo. Em certos casos, relata-se ir para outro “plano” ou “dimensão”, visitando cidades espirituais, ou mesmo viajar para fora do Planeta Terra. Eventualmente as experiências podem durar vários minutos ou uma hora.
  5. Os indivíduos relatam que, durante a experiência, mantinham suas faculdades normais de atenção, memória, juízo crítico, como na vigília. Ou seja, ao contrário dos sonhos, onde há um momento final em que o indivíduo “acorda” e percebe que estava em outro estado de consciência e, inclusive, fica intrigado no porquê de não ter questionado as ocorrências oníricas “absurdas” que presenciou. Parece haver um degradê na “lucidez” das experiências fora do corpo, variando desde um estado de consciência semelhante ao da vigília física, até estados próximos a sonho, onde o indivíduo questiona muito pouco sobre o evento, que se parece mais com um “sonho de estar fora do corpo” do que uma “experiência”.
  6. Em alguns casos, a experiência inicia com o indivíduo “acordando” em algum lugar distante, embora saiba que seu corpo dorme no quarto. Em outros casos, o indivíduo percebe todo o processo de separação ou “decolagem” para fora do corpo. O retorno também pode acontecer de maneira deliberada ou inesperada, despertando-se imediatamente ou sentindo todo o processo de “re-encaixe” ou “aterrisagem”.

Incompatibilidade das explicações “normais”

menteA partir destes elementos, tanto o experimentador quanto os pesquisadores do assunto percebem que a experiência fora do corpo não pode ser encaixada na categoria de um simples sonho. Mesmo nos sonhos lúcidos o participante “sabe” ou percebe que os eventos estão ocorrendo “dentro da própria cabeça”.

Outro fator que intriga e perturba as tentativas de explicação mais convencionais resulta da constatação que estas experiências não têm uma correlação direta com o estado de saúde psíquica do indivíduo, nem com suas crenças. Muito pelo contrário, as experiências ocorrem normalmente com pessoas saudáveis e ajustadas ao meio, sem serem acompanhadas por sintomas ligados a qualquer tipo de distúrbio psicológico. Além disso, elas muitas vezes têm efeitos aparentemente benéficos ao experimentador, que se torna mais interessado por questões filosóficas sobre o sentido da Vida, ou conectar-se com os outros, com a natureza, com valores éticos elevados. Isso inviabiliza categorizar a EFC como um evento de natureza patológica ou disfuncional.

Tal observação não descarta o reconhecimento da existência de experiências desagradáveis. Um dado anedótico mas muito frequente dos “viajantes astrais” fala no sentido de que as experiências costumam ser um espelho do momento em que a pessoa se encontra, exacerbando as questões emocionais positivas ou negativas pelas quais se esteja passando.

Pelos fatores mencionados acima, não é possível encaixar a EFC na categoria de alucinação comum. Além de as alucinações estarem comumente associadas a distúrbios e doenças, elas também terminam com uma espécie de “acordar” do indivíduo, isto é, o momento a partir do qual ele reconhece que estava em um estado onde suas percepções e faculdades críticas estavam alteradas ou reduzidas.

Por fim, observa-se, tanto através de questionários padronizados quanto de relatos individuais, uma certa universalidade da experiência, que não parece ser desencadeada por simples crença fervorosa. Muitas vezes ocorre o contrário: a experiência pega de surpresa a pessoa cujas crenças e valores são opostos, e também acontece com indivíduos que desejam ardentemente não saírem do corpo.

Tudo isso desafia a tentativa de simplesmente encaixar a EFC em categorias já conhecidas como o sonho, o sonho lúcido, a alucinação ou mero desejo de acreditar na experiência. Por mais que se resista a explicações espiritualistas sobre a EFC, é preciso reconhecer que as ciências da mente tampouco sabem o que ela é, exatamente.

Problemas filosófico-científicos

cérebro deusA EFC traz problemas aos pesquisadores e pensadores. Da metafísica espiritualista (a resposta para o mistério está em um plano espiritual) à metafísica materialista (a resposta para o mistério está no cérebro), é desconfortável aceitar a permanência da dúvida. A reação humana é buscar segurança na resposta que pareça mais plausível.

Mas o primeiro problemas é a enorme impotência – ao menos até o presente – de se tentar estudar alguma contrapartida objetiva do que a EFC provoca de mais intrigante: a possibilidade do o indivíduo ausentar-se do próprio corpo, temporariamente. Testes laboratoriais já foram realizados na tentativa de o viajante astral provocar efeitos físicos (psicocinese) ou detectar números e imagens-alvo, durante uma EFC. Alguns obtiveram êxito.

Entretanto, a própria Navalha de Occam força o parapsicólogo a aceitar explicações mais simples no lugar de explicações mais complexas. Uma explicação de psicocinese (“o indivíduo provocou efeito físico através da própria vontade”) é mais simples do que uma explicação de EFC (“o indivíduo saiu do corpo e provocou o efeito físico através da própria vontade”). O mesmo se dá na explicação de clarividência (“o indivíduo percebeu a informação à distância”) em relação à EFC (“o indivíduo saiu do corpo e percebeu a informação”). Por esses problemas lógicos, não há, até o presente, o desenho de um experimento que possa satisfatoriamente produzir evidência objetiva de que o espírito ou essência humana saiu do corpo.

Para os céticos mais descrentes, isso é ótimo. A falta de um experimento que consiga demonstrar a saída do corpo acaba funcionando – psicologicamente, não logicamente – como uma evidência a mais de que não existe tal saída. Mas a proposição “não há saída do corpo” é um enunciado existencial sem utilidade científica, uma vez que ele jamais pode ser confirmado, ou seja, transformado em hipótese e teoria. Em termos lógicos, não se pode afirmar uma inexistência universal (nada sai do corpo), pois não há experimento que consiga comprovar uma negação universal. Se pode apenas investigar a possibilidade de que “algo” saia do corpo, admitindo-se a elaboração de um experimento que demonstre esta saída.1 E, conforme visto no parágrafo anterior, ainda carecemos de experimentos que possam, mais conclusivamente, detectar tal saída.

Para os projetores e espiritualistas, a “culpa” pela falta de comprovação é da própria Ciência, que não aceita os relatos pessoais como evidência empírica de um fenômeno de saída extracorpórea. Bom, neste quesito, estou mais inclinado a concordar com a tal “Ciência”. Se devemos aceitar, de quem aceitaremos? O que fazer quando houver constatações díspares? Como investigar algo que foi acessado apenas por outra pessoa? No fundo, não se trata de que “a Ciência” não permite isso ou aquilo (como se a Ciência fosse uma pessoa ou um país com proibições estritas). Se trata de que qualquer conhecimento, para gerar frutos, ser aprimorado, ter utilidade pública, precisa ser construído sobre bases compartilhadas.

Enquanto isso, observo que os “viajantes astrais” – ao menos os que compartilham os próprios relatos – ainda exploram pouco o que as EFCs oferece de mais acessível, mais evidente, mais gritante. Me refiro a conhecer a si mesmo. Em 2013 escrevi uma resenha crítica sobre o e-book de Saulo Calderón, Um Iniciante na Viagem Astral. Nele, cito uma passagem onde Saulo sintetiza com precisão:

“As pessoas tencionam sair do corpo e depois de um tempo, descobrem que não importa muito só sair do corpo, mas estar bem dentro e fora dele. Indagamos, sair para onde? Sair para a espiritualidade! E o que encontraremos lá? Principalmente a nós mesmos da forma mais nua e crua possível, e isso quase nunca é agradável.” (p. 11)

escher espelho

por M. C. Escher

O fato é que escutamos diversos alertas neste sentido. Concordamos que encontraremos, no mundo espiritual, nosso próprio reflexo mas… saímos do corpo e continuamos procurando coisas “fora de nós” (não que isto seja, necessariamente, incorreto). Queremos saber se “existem, realmente”, elementais, cascões astrais, devas, espíritos desse ou daquele tipo, alienígenas e extraterrestres, seres de luz, comunidades espirituais em outros planetas, embaixo d’água ou em outras dimensões. Queremos saber “quem fomos” em vidas passadas, se fomos reis, rainhas ou escravos, e quem foram nossos pais, filhos, irmãos, cônjuges. Queremos saber se uma tragédia ocorrida em tal lugar foi consequência de algum “acerto cármico”. Queremos saber onde está Jesus Cristo, Buda e Hitler. Queremos saber, de uma vez por todas, qual a cor e posição exata de cada chakra, e para que lado giram, e demais dúvidas infindáveis. É como se, ao olharmos para um espelho, dirigíssemos nossa atenção, sobretudo, para o vidro.

Há diversas metodologias e recursos para explorar o infinito universo íntimo, pessoal, autobiográfico, subjetivo. Também em 2013 escrevi um relato autobiográfico voltado à minhas primeiras experiências fora do corpo2, utilizando o suporte teórico de Rhea White e Suzanne Brown. Muito mais pode ser explorado a partir do mesmo evento, em uma espiral infinita de autoinvestigação. A cada volta, mais se cresce e mais se descobre. Mas isto é assunto para um próximo artigo.


E você, o que pensa sobre as possibilidades, utilidades, propósitos, motivos ou causas das Experiências Fora do Corpo? Tem algum interesse no assunto? O tema ou a experiência, lhe tocam de alguma forma?


Resumo

A experiência fora do corpo (EFC) é a experiência de estar em um local distante de onde o próprio corpo se encontra no referido momento. Tentativas de explicação variam desde a existência concreta do espírito (ser, essência) que, de fato, se separa do corpo, até a ideia de que se trata de um fenômeno puramente mental. O fato é que muito pouco se sabe sobre a natureza e as causas da EFC, para além de conjecturas. De qualquer maneira, por suas características e diferenças, o fenômeno não consegue ser encaixado em noções convencionais de sonho, sonho lúcido, alucinação ou mera crença fervorosa. Enquanto isso, fala-se sobre os benefícios deste estado de consciência para autoinvestigação e autoconhecimento mas esta prática ainda precisa ser mais explorada.


Última atualização: 11 ago 2016

Notas

  1. Caso ajude a ilustrar esta ideia, podemos pensar em um exemplo absurdo. Tomamos como ponto pacífico que “não existem unicórnios”. Entretanto, não somos capazes de desenvolver uma pesquisa que consiga provar que eles não existam. Podemos apenas provar que algo existe. Assim, cientificamente, o máximo que se pode dizer é que “não há evidências da existência de unicórnios”.
  2. Amaral, F. (2013). My first out-of-body experience. Journal of Exceptional Experiences and Psychology, 1(2), 39-43. Disponível em https://issuu.com/exceptionalpsychology/docs/jeep__2013__winter_/39. Traduzido para o Português em http://www.autopesquisas.com/parapsicologia/minha_primeira_efc.pdf.
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4 comentários

  • Muito bom o artigo. Parabéns! Fiz um curso onde o professor afirmou que a EFC já foi testada com o objetivo de espionagem militar e para desenhar o relevo de alguns planetas (exoprojeção) Você sabe se há algum artigo ou site que comente sobre isso?

    • Flávio Amaral

      Olá Isolda, feliz em vê-la por aqui. Obrigado. Sim, há links principalmente em inglês comentando os experimentos com Ingo Swann e Pat Price. Em breve vou verificar os links e referências mais completas e incluirei pra vc conferir, pois pretendo escrever um artigo com os experimentos laboratoriais feitos sobre a viagem astral.

  • Esta semana foi publicado um verbete na enciclopédia da Conscienciologia sob o título Exoprojetor, eu não via a defesa, nem li o verbete, mas esta disponível na internet a defesa neste link:
    https://www.youtube.com/watch?v=hvZSIP3UZZQ

    • Obrigado pela recomendação. Assisti a alguns trechos mas não encontrei nada de mais… Faz tempo que as Tertúlias se tornaram repetitivas. Eles exploram pouco os temas e acabam caindo nos clichês de sempre. Se achares algum trecho interessante traga para comentarmos.

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