Fenômeno e experiência

fenomeno e experiencia
Este artigo é a parte 1 de 2 na série Fenômeno e Experiência

Introdução

Uma das primeiras causas de confusão no momento de investigar eventos parapsicológicos é misturar as noções de experiência fenômeno. 

Fenômeno se refere ao que pode ser observado pelos sentidos, ao que “se mostra aos olhos” ou “salta à superfície”. Quando falamos de fenômeno, estamos tratando daquilo que pode ser observado objetivamente. Quando falamos que algo é objetivo, estamos assumindo que a existência deste “algo” independe do sujeito, da vontade, imaginação e demais faculdades mentais de cada pessoa.

Experiência se refere aos eventos vivenciados pelo ser e que só podem ser conhecidos através do seu discurso. Ao falarmos de experiência, nos referimos àquilo que é sentido subjetivamente. Por subjetivo, assumimos que a existência deste “algo” depende do sujeito, da vontade, imaginação e demais faculdades da pessoa que teve a experiência.

Os eventos não são fenômeno ou experiência. Fenômeno e experiência são categorias que usamos para descrevê-los, seja no estudo da Parapsicologia, seja em qualquer outro estudo que envolva as Ciências Humanas. Da Medicina à Psicologia, da História à Antropologia, da Filosofia às Ciências Sociais, ambos fatores, subjetivos e objetivos são levados em conta. É verdade que as “evidências objetivas” recebem um status maior em boa parte das pesquisas científicas. Porém, isso mostra a dificuldade de se fazer uma boa pesquisa a respeito das experiências subjetivas, não sendo motivo, apesar de tudo, para se tentar forçar uma objetividade destas experiências a qualquer custo, como às vezes se observa por investigadores menos experientes das área espiritualistas.

Vamos pegar dois exemplos da Medicina para ver como estes dois conceitos interagem:

Exemplo 1: paciente chega ao consultório dizendo que está tendo um ataque cardíaco. O médico imediatamente fará mais perguntas atrás de mais informações. Algumas destas informações dependem unicamente da experiência do paciente: dores, disposição, enjôos. Mas o médico não levará apenas a experiência do paciente em consideração, procurando também por sinais objetivos: batimentos cardíacos, sinais físicos visíveis etc. Ao unir as informações subjetivas apresentadas pelo paciente com as informações objetivas verificadas por si mesmo e seus equipamentos, o médico pode chegar à conclusão de que não se trata de um infarto, mas de um refluxo estomacal. Um erro poderia ter ocorrido caso o médico se baseasse apenas na experiência do paciente e ignorasse indicadores fisiológicos.

Exemplo 2: paciente chega ao consultório dizendo que está tendo um ataque cardíaco. O mesmo procedimento é feito, mas o médico não constata sinais ou sintomas de qualquer problema orgânico. Mas por não ter conhecimento de outros sintomas – que dependem muito de investigar a subjetividade do paciente – o médico o libera, dizendo que o mesmo “não tem nada” e precisa apenas de repouso. Mas neste caso, o médico em questão não tinha o preparo necessário para perceber que o paciente sofria da síndrome do pânico. O paciente volta para casa mais transtornado, pois sentia medo, ansiedade, preocupação (experiências) e agora, ainda por cima, acha que “está ficando louco”, já que nenhum médico descobre o seu problema.

No primeiro exemplo, o médico levou em consideração as informações colhidas subjetivamente pelo discurso do paciente e objetivamente pelos equipamentos e por seus sentidos. Graças a ambas, conseguiu orientar seu diagnóstico e tratamento. Porém, no segundo exemplo, o médico não explorou suficientemente a experiência do paciente. Constatou corretamente que não havia infarto mas ignorou a existência de outros sinais subjetivos de um problema psicológico.

Parapsicologia

Observe agora como os conceitos de fenômeno e experiência operam na hora de analisar eventos de interesse parapsicológico. Imagine o seguinte caso:

  • Maria estava tomando seu café, tranquilamente, quando lhe veio a imagem de uma casa da vizinhança em chamas. Correu até o local e não viu nada de anormal, a princípio. Porém, ao olhar pelas janelas, viu que uma chaleira havia sido esquecida no fogo. Conseguiu telefonar para a vizinha a tempo de evitar um acidente.
  • João dormia no sítio da família quando sonhou que se balançava em um pneu, amarrado sobre um abacateiro frondoso. Nesse momento, escutou seu avô, já falecido, mandando-o cavar. No dia seguinte, João foi àquele exato local e cavou, encontrando uma caixa com moedas antigas de alto valor.

Em ambos os casos temos (a) um ou mais sujeitos e (b) um fluxo de informação obtido por vias desconhecidas. Sem este fator desconhecido não haveria um problema a ser investigado pela Parapsicologia. Portanto, vamos comparar algumas maneiras possíveis de se analisar esses fluxos.

  1. Um possível caminho é tomar por base o conteúdo da experiência. Maria teve uma experiência que popularmente chamaríamos de intuitiva, visual. A partir deste imagem, correu e foi capaz de evitar um acidente. João, por sua vez, teve uma experiência de sonho aliada a um contato com seu falecido avô. Graças à mensagem do avô, João pode recuperar relíquias da família. Um dos problemas, aqui, é assumir a existência objetiva de elementos (no caso, os espíritos) cuja verificação depende unicamente da avaliação subjetiva. Seria como, no caso médico acima, assumir que se o paciente diz que está infartando, ele está infartando.
  2. Uma narrativa um pouco mais radical poderia acrescentar elementos à experiência de Maria, afirmando que no seu caso, também havia a presença de espíritos comunicantes, anjos da guarda ou outra entidade imaterial que lhe ajudaram a captar a informação e prevenir o acidente. O problema desta afirmação é concluir pela existência de elementos onde eles não são mencionados. Esta forma de analisar, considero muito problemática pois, ao invés de partir do relato, inclui elementos (não verificados) para defender conclusões pré-formadas.
  3. Uma terceira maneira é levar em consideração tanto os elementos objetivos quanto subjetivos, analisando cada uma destas partes em seu próprio valor. Segundo essa abordagem, nos dois casos verificamos que um sujeito (Maria ou João) captou a informação presente a respeito do ambiente, de um objeto inanimado (a chaleira no fogo ou o a caixa com moedas). A captação da informação faz parte do conteúdo objetivo. Além disso, os eventos também possuem conteúdos subjetivos (os elementos como a imagem mental, o sonho ou a voz do avô falecido), que variam de experiência para experiência.

O trabalho de Louisa E. Rhine, Hidden Channels of the Mind (1961), “canais ocultos da mente”, traduzido no Brasil como “Canais Ocultos do Espírito”, se tornou importante referência à pesquisa parapsicológica desde então. Um dos importantes méritos desta obra é ajudar a compreender estas duas faces – objetiva e subjetiva – dos eventos parapsicológicos, conforme procurei demonstrar logo acima. Louise Rhine classifica os eventos conforme o tipo (do fenômeno) e a forma (da experiência).

Sobre os fenômenos…

Falaremos sobre as formas das experiências parapsicológicas em um futuro post. Mas já vimos quais são os tipos básicos de fenômenos: clarividência, telepatia, precogniçao e psicocinese (fenômenos psi). Se observarmos o que ocorreu com João e Maria nos exemplos acima, notaremos que em ambos os casos tivemos a obtenção de informação cuja fonte é o ambiente ou objeto inanimado. Portanto, ambos são exemplos do fenômeno de clarividência. 

Se tomássemos, pelo contrário, o conteúdo da experiência como conteúdo do fenômeno, diríamos que o caso de João poderia ter sido de telepatia (transmissão da informação do espírito do avô para o neto). Mas seria uma classificação problemática. E se João não tivesse muita certeza de que foi seu avô? E se não tivesse certeza se a voz era uma sensação em sua mente ou veio de um ente espiritual externo? Incertezas como essas acontecem nas experiências parapsicológicas. Elas não são ignoradas pelo parapsicólogo, como mostrei futuramente, mas são arriscadas demais para serem utilizadas literalmente na classificação dos fenômenos psi.Clarividencia-Chaleira

Uma outra vantagem desta forma de analisar os eventos é a procura da explicação mais “econômica” para a dinâmica de obtenção da informação. No caso de Maria, está claro que o canal de informação mais provável e, também, mais econômico, é diretamente entre de Maria e a casa da vizinha, especificamente sobre o fato de que uma chaleira havia sido deixada sobre o fogão ligado e um acidente estava prestes a acontecer.

No caso de João, se assumirmos o fluxo mais econômico da informação, concluiremos que este fluxo é entre João e as relíquias escondidas pelo avô. Se incluirmos nesta dinâmica o espírito do avô, estamos supondo a existência de três elementos envolvidos no processo psi (o tesouro, o espírito avô e João), ao invés de apenas dois (o tesouro e João). Também estamos supondo a existência de 2 fenômenos parapsicológicos (um espírito e a comunicação deste com João) ao invés de um (a captação de informação à distância).

clarividencia-tesouro

Para saber se você entendeu a lógica, tente identificar qual fenômeno psi está presente em cada um dos casos a seguir:

Na segunda parte deste post você conhecerá as formas que as experiências parapsicológicas podem tomar e responder a algumas questões para testar seus conhecimentos.

Resumo

Quando falamos de fenômeno, estamos nos referindo à dimensão objetiva de um evento, ou seja, aquela que pode ser constatada pelos sentidos e instrumentos, à qual atribuímos, portanto, uma existência independente do sujeito observador. Quando falamos de experiência, nos referimos à dimensão subjetiva, ou seja, vivenciada, de um eventos, e que portanto depende deste sujeito e só pode ser conhecida através do seu discurso.


Última atualização: 8 jul 2016
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