Normalidade e percepções

daltonismo e camuflagem
Este artigo é a parte 2 de 2 na série Parapsicologia e normalidade

Para continuar nossa discussão sobre normalidade e Parapsicologia, precisamos refletir sobre nossas percepções.

Como as coisas são…

Desde a infância naturalizamos a ideia de que percebemos as coisas como elas são. Mas… e se for o inverso? E se o que fazemos for o caminho contrário, atribuíndo que as coisas são o que percebemos delas? Bom, não vou me arriscar a responder em um artigo o que vem sendo discutido há mais de 25 séculos. Quero apenas chamar atenção para o fato de que, automaticamente, acabamos tomando como ponto pacífico que há maneiras “certas” de percebermos as coisas, maneiras de percebermos “melhor”, “mais corretamente”, a “realidade”, o que é “verdadeiro”. Atribuímos esta qualidade às percepções humanas “normais”.

Já introduzi, no primeiro artigo, a noção de que normalidade se refere, mais apropriadamente, à estatística, à ideia do que é comum ou incomum. Se atribuirmos a este conceito a função de resolver problemas como bom ou mau, certo ou errado, vamos perpetuar mais confusões e preconceitos do que realmente esclarecer alguma coisa.

applesParece fácil de entender, certo? Mas então você sente fome e resolve ir ao cesto de frutas. Você encontra uma maçã vermelha e outra verde. Por um mecanismo automático, você e todos nós dizemos que uma mação é vermelha e a outra é verde. Esquecemos que esta propriedade que damos à maçã de ser alguma coisa se deve ao fato de que “todo mundo” enxerga essas frutas como tendo cores diferentes. Seria engraçado irmos na feira e pedirmos “eu quero cinco maçãs que todo mundo percebe de uma cor que todo mundo chama de vermelha.”

applesPorém, algumas pessoas não enxergam tanta diferença assim na cor dessas duas maçãs. Para essa pequena parcela, as mesmas frutas podem ser visualmente muito parecidas, como na foto à esquerda. Então dizemos que estas pessoas têm um “distúrbio”, uma “doença” ou “perturbação” na percepção visual. O daltonismo (ou discromatopsia).

Note que o critério utilizado para definir um distúrbio é baseado no funcionamento normal (comum, esperado) dos olhos. Mas por que um funcionamento diferente, fora do normal, anormal, deve ser considerado uma doença?

Anormalidades admiradas…

Assim como algumas pessoas têm alterações que as fazem enxergar menos cores do que o normal, outras pessoas parecem ter um tipo extra de células-cones que as permitem enxergar mais variações onde as pessoas normais enxergam a mesma cor. Ambos os casos desviam do normal mas, por algum motivo, enxergar menos cores é rapidamente associado a uma desvantagem, enquanto enxergar mais cores é associado a uma vantagem. Basta comparar o que se fala sobre daltonismo e o que se fala sobre tetracromatismo.

Somos uma espécie (ou sociedade) altamente orientada pela visão. Além do mais, também tendemos a pensar que “perceber mais” é melhor do que “perceber menos”. Só aí temos dois bons motivos para considerarmos que ver mais cores é melhor do que ver menos. Será mesmo?

O tetracromatismo se trata de uma condição ou característica ainda pouco estudada e provavelmente cheia de controvérsias. Embora seja, assim como o daltonismo, uma mutação genética – uma anomalia ou anormalidade – dificilmente será considerado uma doença. Em 2014, uma reportagem da BBC apresentou uma mulher com esta “super visão”, após a publicação de um estudo científico mais detalhado sobre pessoas que tinham esse funcionamento visual diferente.

A reportagem faz algumas menções sobre certas dificuldades pelas quais os tetracromatas podem passar. Por exemplo, percebendo mais tonalidades do que o comum, podem ter trabalho para encontrar peças de roupas que combinem, pois cores que a nós, “normais”, parecem iguais, para os tetracromatas, são ligeiramente diferentes. Podem ter problemas encontrando as cores que procuram na hora de decorar um ambiente ou desenhar, pelo simples fato de que o ângulo do sol em diferentes horários produz diferenças grandes na coloração dos objetos, para eles.

A reportagem apresenta o caso de uma artista plástica, Concetta Antico, identificada como tetracromata. Aos olhos “normais”, suas pinturas tendem a ser mais coloridas do que a paisagem original.

anticoA arte de Antico pode nos dar uma ideia da efusividade de tons que ela percebe e procura expressar em suas pinturas. Mas talvez seja a curiosidade do público pela sua “condição” que a torne procurada por seu trabalho. Talvez também seja difícil para Antico encontrar os tons adequados para sua arte, uma vez que as pessoas normais não notariam os tons que ela realmente percebe, lhe obrigando a ampliar os contrastes para que possamos ver. Outros poderiam achar sua arte excessivamente colorida. Em fim, não dá para dizer que sua “super visão” seja, sozinha, uma vantagem adaptativa mas, apenas, dependendo da estratégia seguida e das circunstâncias do meio. Podemos imaginar que outros tetracromatas não conseguiram ser bem sucedidos nas artes visuais, pelas mesmas características ou, quem sabe, simplesmente por não terem tido a sorte de serem estudadas por um pesquisador durante décadas e, depois, “descobertos” por um grande canal de jornalismo.

Enxergar mais cores é uma vantagem?

Dentre os mamíferos, os humanos e alguns primatas do Novo Mundo estão entre os poucos tricromatas 1, ou seja, animais com três tipos de receptores de cores na retina. As demais espécies são dicromatas, enxergando de modo semelhante a certos tipos de daltonismo. Coitados! – você pode pensar…

Não necessariamente. Na verdade, os vários tipos de daltonismo (dicromacia, monocromacia etc) parecem ter também suas vantagens adaptativas. Para os animais caçadores, a menor diversidade de informações parece facilitar a perseguição das presas em movimento. Tente seguir, abaixo, o alvo em movimento (à esquerda, vista pelo olho humano normal; à direita, vista por um daltônico deuteranopo).

output_597BLSAparentemente daltônicos também parecem perceber melhor certas camuflagens, pois a menor variedade de cores os permite identificar mais rapidamente as texturas, diferenciando um predador escondido, por exemplo. No desenho abaixo, a maior quantidade de cores do desenho à esquerda provoca mais distração aos olhos, fazendo com que o “X” se esconda melhor. Para o mesmo daltônico, o “X” se destaca mais rapidamente. Alternativamente, abra a imagem de capa deste post (ou a foto original) e a observe afastando-se alguns metros. Com a visão normal (da esquerda) o soldado se confunde mais facilmente com o arbusto.

CAMUFLAGEM

Por outro lado, com uma visão tricromática, os humanos e outros primatas são capazes de encontrar mais rapidamente frutas vermelhas entre as folhas, por exemplo. Animais que dependem grandemente de flores, como borboletas, tem ainda mais receptores de cores, conseguindo identificar qualquer mínima diferença de tonalidade, o que pode fazer grande diferença em períodos de escassez.

Resumo

As mutações genéticas que fazem com que certos indivíduos tenham capacidade de distinguir maior número de cores, ou menor número de cores, não são, a priori, qualidades ou defeitos, doenças ou dádivas. Ambas possuem prós e contras e, conforme o contexto e as estratégias empregadas, se tornam vantagens ou desvantagens adaptativas. É importante ter isso em mente para discutirmos sobre as percepções “anômalas”, no próximo post (em breve)…


Última atualização: 1 ago 2016

Notas

  1. Ver por exemplo, MORAES, P. Z. P. M. R. Detecção de predadores por dicromatas e tricromatas humanos  e sua implicação na visão de cores em primatas. Dissertação de Mestrado. Natal, UFRN, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/17334/1/PedroZPMRM_DISSERT.pdf. Acesso em: 04 jul. 2016.
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2 comentários

  • Muito interessante, Flávio! No meu blog tenho uma postagem sobre “a realidade do mundo exterior” em que destaco algumas ideias muito parecidas as do seu artigo. Coloco assim:

    “Existe, no entanto, alguma razão para acreditarmos que o mundo simulado em nossas cabeças é uma cópia perfeita da realidade exterior? Kastrup nos dá algumas razões para abdicarmos dessa crença materialista. Em primeiro lugar, para a nossa sobrevivência física, a teoria da evolução de Darwin não favorece a perfeição das representações interiores sobre a realidade exterior, mas apenas que haja alguma combinação daquilo que é simulado pelo cérebro com o objeto percebido do mundo real externo. Conforme ele pontua – “se um tigre está se aproximando de você, é útil ver algo como um tigre real, e não uma outra alucinação não modulada e assemelhada a um sonho”. No entanto, esclarece que sua própria pesquisa sobre redes neurais artificiais mostra que, ao se criar uma representação interna, é útil decotar algumas partes dos estímulos externos, pois a informação completa é muitas vezes confusa e abafa as pequenas partes da realidade que realmente interessam.

    De fato, em termos de vantagens adaptativas, no lugar de favorecer uma tradução plena e fidedigna do mundo exterior, a evolução beneficia uma economia de energia dos sistemas biológicos, para processar somente aquilo que realmente interessa a sua sobrevivência, sem desperdiçar tempo, atenção e recursos no processamento de informações sem direta utilidade para a perpetuação do organismo em seu meio. Em termos de seleção natural, seria desvantajoso, e até mesmo mortal, que um organismo perdesse tempo em copiar o mundo externo em todas as suas partes, perdendo a atenção em detalhes não tão relevantes e reduzindo, assim, sua velocidade de resposta aos estímulos exteriores.

    Em segundo lugar, você pode argumentar que a ciência nos proporciona instrumentos científicos capazes de refinar nossas percepções e de nos fazer perceber partes da realidade exterior que normalmente estão escondidas para nossos sentidos. O problema é que esses instrumentos envolvem o mesmo tipo de simulação arbitrária que o seu cérebro. Trazendo a este ponto a parte final da citação de Charles Tart: por qual lógica você entende que sua representação das cores é mais perfeita do que a representação dos satélites de sensoriamento terrestres?”

    Enfim, excelente postagem!

    Abraços!

    • Flávio Amaral

      Perfeito André. Obrigado pela referência a seu artigo, estou lendo com bastante interesse. Minha tendência é pensar que nem faz muito sentido falarmos de um mundo “como ele é”, uma “ontologia”, já que ele é inevitavelmente mediado pelos nossos sentidos. Em outro artigo que pretendo re-elaborar aqui, sobre a experiência fora do corpo, até pergunto “quem disse que o correto é nos percebermos *dentro* do corpo”? hehe
      Sigamos em contato. Abraços!

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