Normalidade e saúde

capa normalidade
Este artigo é a parte 1 de 2 na série Parapsicologia e normalidade

Introdução

 

É normal ter percepções anormais?

Ainda que esta pareça uma pergunta inteligente de se fazer, na verdade ela não é muito adequada. Ela pressupõe que o conceito de normal (e por tabela, o de anormal) é conhecido quando, na verdade, não é. É tão automático assumirmos certas coisas como sendo “normais” que acabamos por banalizar essa ideia e, ainda por cima, misturá-la com juízos de valor. Normal perde a condição de conceito e ganha a condição de preconceito. Ao invés de informar-nos sobre algo, desinforma-nos.

compasso antigoPalavra de origem latina, norma era o compasso, instrumento utilizado na carpentaria e outros ofícios. Intimamente relacionada a outro instrumento, a regula (régua), raiz da palavra “regra”. Ambas possibilitavam o desenho reto, a direção, as fundações, bases e padrões para as edificações, transportes, manufatura etc. Podemos imaginar a importância que representaram para um império expansionista como o Romano.

distribuicao paranormal

Charge: distribuição normal e distribuição paranormal. Arte: Theresa Racer.

A ideia de norma passou a representar aquilo que é mais frequente, que se repete, pode ser tomado como regra, em contraposição à exceção, ao único, ao inesperado. A estatística tem a “curva normal” como uma das suas ferramentas mais importantes, onde o ponto mais elevado da curva representa o valor de maior frequência esperada em determinada amostra, podendo-se determinar a probabilidade dos valores de menor frequência e o quanto eles desviam do padrão.

Em outras palavras, a noção do que é normal se desenvolveu, dentro das ciências e das técnicas, como algo que representa o que é frequente, o que é esperado, o que é mais comum, e também com as fôrmas, os moldes, o estabelecimento das normas e regras.

A normalidade no senso comum

Faz parte da biologia animal identificar padrões, que são atalhos que nos permitem tomar decisões e agir em situações novas, com base na identificação de semelhanças com situações antigas e já conhecidas. Nos seres humanos esta capacidade é formidavelmente alta, o que faz com que sejamos, mesmo sem saber, “obcecados por normas1“. Isso mesmo! Quanto mais conhecermos e dominarmos essas linhas que nos mostram como agir em uma atividade, maiores as nossas chances de sucesso. Por exemplo, neste exato momento você está operando conforme normas que lhe permitem ler esse texto, normas com as quais você relaciona as palavras do texto com sua experiência de mundo, normas de como operar seu computador ou smartphone (e possivelmente outras normas não diretamente ligadas com a atividade em si, por exemplo, normas de vestir-se, portar-se em público, de cuidados com a saúde etc). Tente imaginar quantas normas você usou nas últimas 24 horas!

Quando nos deparamos com algo que foge à norma, temos um dispêndio de esforço para compreender, reagir ou nos adaptarmos a ela. Lembre-se de quando você tenta operar o smartphone de um amigo, ou digitar em um teclado diferente, ou ler um texto em Português arcaico, para não falarmos de outro idioma. Trata-se de tentar operar normas que você ainda não domina. Seja ele um esforço muscular, intelectual, uma surpresa ou impacto emocional, esta “anormalidade” representa um consumo maior de energia.

Portanto, é provável que o organismo receba estas “anormalidades” como coisas desagradáveis. Nesse caminho, acabamos associando a noção de “anormal” com algo ruim, origem de algum mal. Uma palavra concebida para expressar semelhanças e diferenças passa a ser usada, também, para expressar o desejável e o indesejável. É aí que as coisas se confundem.

Observe nas ilustrações abaixo como as coisas não são bem assim. Suponha determinada região onde um dia nublado seja algo completamente normal; um dia com sol encoberto seja um pouco menos; nevar seja algo um pouco mais raro; já um dia completamente ensolarado seja algo bastante anormal de acontecer. A escala se pareceria com algo do tipo:

Perceba que esta escala fala da frequência dos eventos. Mas poderíamos falar de uma segunda escala, sobre o bem-estar dos habitantes daquela região com relação a cada tipo de clima. Imagine que, na média, aquelas pessoas se sentem muito bem em dias ensolarados, muito mal em dias nevosos e, de modo intermediário em dias parcialmente cobertos ou nublados. A escala se pareceria com algo assim:

linha-temperatura-2

Poderíamos então representar estes eventos climáticos dentro de um esquema com 4 quadrantes, conforme abaixo:quadrante-temperatura

Normalidade e saúde2

O conceito de saúde não é algo estanque nas ciências médicas e psicológicas. Conforme o caso, certas definições podem se aplicar melhor do que outras, sendo que cada definição têm suas vantagens e limitações. Por exemplo, a saúde pode ser entendida como ausência de sofrimento. Entretanto, há situações em que o indivíduo pode manifestar ausência de sofrimento mas provocar prejuízos sociais. Portanto, outras definições de saúde podem abarcar a boa adaptação social. Entretanto, certas caraterísticas inadaptativas também podem, conforme a estratégia e as circunstâncias, gerarem resultados positivos para o indivíduo ou seu meio (por exemplo, nas artes), e aí o conceito do que é saúde estaria também intimamente relacionado às circunstâncias. E assim sucessivamente…

O raciocínio feito com o clima, na seção anterior, pode ser aplicado à relação entre normalidade e saúde (qualquer que seja o conceito de saúde). Não é possível estabelecer uma correspondência exata entre ambas. Da mesma forma que a normalidade não é sinônimo de saúde, a anormalidade não é sinônimo de doença. O estudo das características/eventos/reações “anormais” pela área da saúde pode levar em conta um esquema de dois eixos como o acima, mais ou menos da seguinte forma:

saude-quadrantes

Este modelo admite que qualquer evento/reação/característica “biopsicossocial” pode ser enquadrado em 4 quadrantes distintos. Anormal-saudável, anormal-patológico, normal-saudável ou normal-patológico. Além disso, a intensidade dos níveis de normalidade/anormalidade e saúde/patologia varia. Esse tipo de modelo evita saídas muito simplistas, que enxergam a normalidade como sinônimo de saúde, ou as reações opostas igualmente errôneas, que enxergam a normalidade como sinônimo de doença.

Resumo

Não é possível estabelecer uma relação direta entre normalidade/anormalidade e saúde/doença. Os modelos de saúde precisam levar em conta as 4 combinações possíveis destes 4 elementos para poder melhor avaliar as experiências e fenômenos extraordinários e anômalos da Parapsicologia.


Última atualização: 13 out 2016

Notas

  1. Para fins deste artigo não é necessário se aprofundar na diferença entre normas e regras. No dia-a-dia, estas noções são usadas de maneira intercambiável. No Direito as regras são consideradas um tipo específico de norma.
  2. Embora a noção de saúde esteja muito associada à questão do corpo, é importante lembrar que a definição atual de saúde para a OMS implica um estado de bem-estar físico, mental, espiritual e social.
Navegar pela sérieNormalidade e percepções >>
Compartilhar para multiplicar...
FacebookTwitterGoogle+LinkedInEmailPrint

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *