Medo de psi?

capa medo de psi

Psi, este fator desconhecido – e não consensualmente reconhecido – com o qual pesquisadores batizaram fenômenos inexplicáveis observados em seus experimentos1, referido tradicionalmente por outros termos como paranormal, sobrenatural, supernormal, parapsíquico etc… nos dá medo?


Para refletir2 sobre esta questão, a primeira saída fácil que precisamos evitar é a mania de atribuir o medo sempre ao outro. É uma fórmula tentadora e muito difícil de nos livrarmos, segundo a qual, nós – ou melhor, eu – estou “aberto para o novo”, enquanto aqueles que não aceitam minhas ideias estão “resistentes”, devido a algum medo.

stephen braudeO filósofo Stephen Braude, Ex-Presidente da Parapsychological Association, tem se dedicado a responder esta pergunta e – muito mais do que isso – discutir suas implicações. Já em 1993, Braude apresentou o tópico em uma newsletter3 da ASPR, o qual foi revisado e publicado pela revista (não acadêmica) DarkLore15 anos depois, com o título “O medo da psi revisitado: ou ‘é o pensamento que conta.'”4 (tradução livre minha).

SB5 inicia seu ensaio revisitando o evento que lhe abriu o interesse pelo sobrenatural, em 1968.6 Foi durante uma “brincadeira” de mesa girante em sua casa, a convite de dois amigos, que presenciou, ao longo de 3 horas, toques e inclinações da mesa que, até hoje, não consegue explicar. Não por acaso, preferiu aguardar cerca de 8 anos para – já doutorado e professor-titular – abordar o assunto academicamente.mesa girante

SB não tem esperanças de que qualquer detalhe fornecido sobre aquele evento particular satisfaça os mais céticos. De fato, em parte devido à sua própria formação filosófica, não se dedica à “busca por evidências” sobre a psi. Outro problema que lhe ocupou foi o medo, a começar pelo medo que aquela primeira experiência lhe desencadeou. Para ele, este medo também está presente e é uma pedra no sapato da pesquisa parapsicológica. Não se trata de um simples “medo do desconhecido”, um clichê que repetimos tantas vezes esquecendo-nos de que várias coisas desconhecidas não nos dão medo. Para SB, se um fenômeno físico de pequena magnitude (raps e toques em uma mesa) podem ser produzidos, não há por que pensar que estes fenômenos possam ocorrer em grande magnitude (uma doença, acidente ou calamidade).7

olhar de medoSB concentra-se na psicocinese. A ideia básica que provoca o medo é a possibilidade de que a influência da vontade direta sobre o mundo físico seja maior do que gostaríamos que fosse. Sobre essa ideia residem duas implicações principais: (1) não estamos tão no controle das coisas como gostaríamos, já que dominamos e conhecemos apenas uma ínfima parcela das variáveis que podem interferir no mundo ao nosso entorno e; (2) temos responsabilidades maiores do que pensamos, já que também podemos interferir de maneira inconsciente sobre os acontecimentos do mundo. Há, ainda, uma terceira implicação, sobre nossa autoestima, pois alimentar esse tipo de pensamento nos aproxima de ideias que, até então, atribuímos ao “pensamento mágico” de sociedades “primitivas” ou das crianças.

Naturalmente, a psi pode provocar tanto medo quanto atração, uma vez que também estende as possibilidades humanas a níveis muito mais amplos. Por certo, reações de medo e atração ocorrem em intensidades diferentes em pessoas diferentes. Se não provocasse qualquer atração, talvez ela já estivesse erradicada do campo dos interesses humanos. Mas o foco de SB – dada a audiência para quem ele se dirige – é mostrar que, embora atraídos pela psi, os pesquisadores e a pesquisa científica parapsicológica também se deixam influenciar por este medo. Isso se reflete, basicamente, na forma como, estabelecendo tantos controles quanto necessários para o rigor científico, o pesquisador acaba condicionando o campo a encontrar resultados que fiquem dentro do escopo dos microfenômenos, que residem na faixa confortável da significância estatística sem, no entanto, provocar as reações emocionais típicas dos fenômenos de maior magnitude.

Mme. d'Esperance

Mme. d’Esperance

SB utiliza como exemplo ilustrativo o dado que, cada vez menos, encontramos médiuns produtores de efeitos físicos ostensivos. Nos primórdios da Parapsicologia, os “superstars” pesquisados eram pessoas como Daniel Dunglas Home (1833-1886), Eusapia Palladino (1854-1918),  Mme. d’Esperance (1855-1919), cujos fenômenos eram da ostensividade de levitações completas de objetos, toques de instrumentos musicais e materializações. Conforme o tempo passou, os novos médiuns pareciam produzir fenômenos de escala cada vez menor, a exemplo de Rudi Schneider (1908-1957). Os médiuns atuais parecem fazer esforços cada vez maiores para obterem efeitos físicos cada vez menores, como é o caso de Nina Kulagina (1926-1990) e Felicia Parise.

SB descarta o argumento de que esta menor ostensividade se dá pelo fato de que a tecnologia para detecção de fraudes se tornou melhor. Afinal de contas, a tecnologia para a produção de fraudes também se tornou maior. Sendo assim, não há por que considerarmos que os médiuns tem, na atualidade, menos meios para produzir fraudes, como alegam os céticos. É possível que tenham mais, se pararmos para pensar. SB oferece como hipótese alternativa, o medo da psi.

Ao longo do tempo, as explicações “psíquicas” foram ganhando espaço sobre as explicações “mediúnicas”. Os primeiros paranormais e pesquisadores trabalhavam em sessões onde o médium seria o canal para a manifestação da entidade espiritual. O poder era da entidade, e ficava circunscrito ao momento da sessão. A responsabilidade pelo que acontecesse era da entidade. E o paranormal não tinha aquele poder por si próprio, quando quisesse e como quisesse. Portanto, não sendo detentor de um “poder”, não havia a preocupação ou peso associado ao mesmo. Com o passar do tempo, a pesquisa foi se modificando (e também a cultura) para buscar explicações mais “psíquicas”, que procuram no paranormal a habilidade para produzir o fenômeno. É este que deve se esforçar. É dele os méritos e a responsabilidade. Não é mais um espírito desencarnado, e sim o próprio objeto da pesquisa, quem está violando as leis da natureza.

dois anjos

da Madonna Sistina, de Rafael.

Da mesma forma, a hipótese do medo da psi também dá algum sentido à constatações, ainda que iniciais, sobre uma aparente predisposição paranormal entre pessoas com mais predisposição a percepções alucinatórias.8 Posso dizer para mim mesmo, “não percebo as coisas como todo mundo pois a biologia me fez assim”. É um certo indulto com o qual me sinto menos cobrado por perceber coisas que outros não percebem. Em outras palavras, suponha que eu tenha predisposição a escutar sons alucinatórios. No meio de vários sons sem sentido, eu também escuto conselhos espirituais e premonições. O fato de eu “não saber” o que é alucinação e o que é do mundo espiritual me desobriga a tentar controlar o que acontece, me forçando a uma certa entrega. Se a psi existir, é aqui que ela encontra terreno para se manifestar. Respostas explicam… mas a psi expressa justamente o inexplicável. Respostas oferecem possibilidade de ação e controle… mas a psi expressa justamente o incontrolável. Como dois “daimons” que se fazem presentes nas manifestações humanas, um chamando para a razão, o outro, para a entrega contemplativa.

Notas

  1. Para uma introdução ao assunto, ver p. ex. neste mesmo blog: http://arquivopsi.com/parapsicologia/introducao/o-que-e-parapsicologia/#psi ou a página http://www.debatepsi.com/ de André Luís N. Soares.
  2. Prefiro falar em “refletir” ao invés de “responder”, uma vez que esta é uma pergunta que merece ser constantemente revisitada. A resposta – sim ou não – para um assunto assim é a última coisa que espero, pois esterilizaria a cognição sobre algo que ainda tem muito a nos ensinar.
  3. Braude, S. (1993). The fear of psi revisited, or it’s the thought that counts. American Society for Psychical Research Newsletter, 28(1), 8-11. Disponível em: http://userpages.umbc.edu/~braude/pdfs_pubd/braude–Fear%20of%20Psi.pdf. Acessado em 14 ago. 2016.
  4. Braude, S. (2008). The Fear of Psi Revisited: It’s the Thought That Counts. Darklore Vol. 2, editado por G. Taylor, Brisbane. Daily Grail Publishing, 99-111. Disponível em: http://darklore.dailygrail.com/samples/D2-Braude.pdf Acessado em: 14 ago. 2016.
  5. Utilizarei a sigla SB para Stephen Braude, ao longo deste artigo, para fins de concisão.
  6. O relato também é apresentado, com novos detalhes, em uma palestra oferecida à Parapsychology Foundation, recentemente disponibilizada na internet em https://www.youtube.com/watch?v=7TkuBG18Qzc.
  7. Não significa dizer que eles ocorram com a mesma facilidade, mas sim que também são possíveis.
  8. Neste sentido, e em todo o blog, não considero a alucinação algo necessariamente patológico, mas apenas como uma qualidade perceptiva que difere significamente da média das pessoas. Para dúvidas, confira a série “Parapsicologia e normalidade“.
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