Parapsicologia é ciência?

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Introdução

Parapsicologia é ciência?

Uma sentença não pode ser determinada enquanto seus elementos não forem bem determinados. Depende de como definimos ciência e como definimos parapsicologia.

Em primeiro lugar, não existe “a” definição de ciência. Nossa sociedade desenvolve uma série de atividades que procuram ser associadas à noção de ciência. Entre os assim-chamados cientistas, e dentro do trabalho científico, há um interminável debate que faz com que esta atividade esteja em permanente transformação, inviabilizando definições demasiadamente estáticas ou normativas.

Quanto à Parapsicologia, por se tratar de uma área com pouca inserção acadêmica, não há uma grande rede de instituições, como ocorre com outras ciências, que conversam, intercambiam, constroem currículos, definem agendas e prioridades, pressionam por financiamento de pesquisa etc. Resta aos parapsicólogos irem definindo seus rumos e atividades mais ou menos individualmente, ou em pequenas associações de colegas geograficamente próximos.

Em se tratando de pesquisa, pode-se dizer que a Parapsicologia vai sendo inserida dentro de projetos de outras ciências, mais do que tem um rumo de pesquisa próprio. O mais correto seria dizer que a Parapsicologia é um “domínio”, um campo de fenômenos e experiências “inexplicáveis” pela visão de mundo atual. Estes eventos se manifestam em – e captam o interesse de – diversas disciplinas, da Física à Antropologia, da Psicologia à Biologia, sendo também alvo de reflexão da Filosofia. Assim, alguns cientistas acabam se dedicando a estudá-los, dentro de suas áreas de atuação. Entretanto, poucos são os cientistas que se definem como “parapsicólogos”, não necessariamente por uma questão de status ou legitimidade da área, mas pelo fato de que são muito raros os cursos de formação em Parapsicologia. Portanto, o parapsicólogo provavelmente tirou seu título acadêmico em outra área e se apresentará, naturalmente, conforme sua respectiva formação profissional e universitária.

Mas isto é só para introduzir um pouco da complexidade deste assunto…

Relevância

Você pode se perguntar para que discutir isso? Não bastaria ao cientista simplesmente fazer seu trabalho? E pouco ligar para o que outros pensam, se se trata de ciência ou não?

Pode parecer que sim mas, na verdade, não. A pergunta é importante. Ela levanta um debate muito útil sobre os fundamentos da prática científica, uma discussão que pode levar a melhoramentos de qualquer área analisada. Além disso – e aí mora o perigo – ela não é uma pergunta simplesmente desinteressada, mas um problema cujos resultados influenciam diretamente a legitimidade do trabalho do pesquisador.

Sem legitimidade, exercer o ofício se torna muito mais difícil. Um pesquisador profissional que queira se dedicar a um campo visto como “não científico” não obtém apoio dos colegas para lecionar sobre a área, não consegue abrir laboratórios, não recebe financiamento, não tem estudantes para orientar. Essa deslegitimidade faz com que sua área definhe, tenha menos recursos e, consequentemente, menos condições de produzir resultados, empurrando o pesquisador para outros campos. Sendo os recursos, escassos, e os cientistas, humanos, é de se esperar que briguem por estes recursos, em situações onde não consigam estabelecer cooperação.

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Nesta charge, parapsicólogos são caracterizados como pesquisadores amadores.

Sendo uma questão “de sobrevivência”, de alta importância política e econômica para os agentes envolvidos, é de se esperar que o debate seja levado à opinião pública, na tentativa indispensável de conquistar aliados para o seu lado. E a opinião pública não toma decisões fundamentadas na pesquisa científica do momento. A pesquisa científica é lenta, é controversa, tem respostas parciais e ambivalentes, tem um tempo próprio e um questionamento constante. A ciência de hoje, talvez se torne o senso comum da geração seguinte.

A opinião pública precisa de elementos simples, rápidos, com os quais se identifique e tome decisões. Da mesma forma como eu e você não consultamos pesquisas exaustivas para resolver as escolhas que fazemos no dia-a-dia, mas seguimos o que nos parece correto no limite de tempo que temos disponível. Então, para a opinião pública, nem sempre são os méritos científicos que contam em um trabalho. Pode ser, ao invés disso, a aparência de ciência.

Ciência

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Mario Bunge

Em 2015 apresentei um artigo1 analisando características científicas e “pseudocientíficas” em um campo de estudo específico chamado “conscienciologia”. Para definir ciência, naquele artigo, utilizei um paper escrito pelo filósofo Mario Bunge2, apresentado em uma conferência da sociedade cética CSICOP3, curiosamente com o objetivo de “desbancar” a Parapsicologia, colocando-a na condição de pseudociência. Chegaremos neste assunto em seguida mas, antes, vejamos quais os 12 requisitos básicos apresentados por Bunge para se definir um campo de saber como científico: 

  1. A comunidade (C) envolvida naquele campo do saber é compostas por pessoas com formação científica, com carreira dedicada à área.
  2. A comunidade está integrada à sociedade de entorno (S), fazendo parte de uma mesma cultura.
  3. O domínio (D) a ser pesquisado é formado por entidades reais, ou cuja realidade é verificável.
  4. A visão geral (G) é composta por assuntos verificáveis que se traduzem em leis observáveis; uma teoria realista sobre o mundo; valores de clareza, coerência e veracidade; espírito livre de pensamento não subjugado a figuras de autoridade.
  5. O fundamento formal (F) utilizado é composto por teorias lógicas e matemáticas atualizadas.
  6. O embasamento específico (B) é composto por uma diversidade de dados, hipóteses e teorias atuais, obtidas de outros campos de saber.
  7. problemática (P) sobre a qual este campo se debruça trata de questões cognitivas, ou seja, a tentativa de conhecer e explicar como as coisas funcionam.
  8. conhecimento acumulado (K) é composto de teorias e teses atualizadas, constantemente testadas, discutidas e reformuladas.
  9. Os objetivos (A) são a descoberta de leis e teorias.
  10. Os métodos (M) utilizados envolvem procedimentos verificáveis.
  11. O campo do saber como um todo (E) é parte de uma rede interativa e maior com outras ciências.
  12. Este mesmo campo (E) se transforma, ainda que lentamente (como resultado da pesquisa, e não de pressões políticas ou conveniências).

Em futuros artigos pretendo apresentar outras fundamentações teóricas e maneiras de problematizar o que é ciência. No próximo, veremos o que é possível discutir sobre ciência e Papsicologia a partir de Bunge. (aguarde…)


Última atualização: 13 out 2016

Notas

  1. A versão original ainda se encontra no prelo, mas foi autorizada uma tradução em italiano para a revista AutoRicerca, disponível em https://dl.dropboxusercontent.com/u/37425532/AutoRicerca/AutoRicerca_Numero_10_Anno_2015.pdf#page=76
  2. Mario Bunge, “What is Pseudoscience?” The Skeptical Inquirer, Vol. 9, Fall, pp. 36-46 (1984). Disponível em: web.utk.edu/~pteropus/pdfs/BungePaper.pdf
  3. Commitee for the Scientific Investigations of Claims of the Paranormal, atualmente redenominada CSI ou Committee for Skeptical Inquiry.
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