Polêmica sobre o Relatório Feilding

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Este artigo é a parte 1 de 2 na série Relatório Feilding

Introdução

eusapia palladinoA italiana Eusapia Palladino (1854-1918) foi a médium de efeitos físicos mais pesquisada de seu tempo e, também, produtora de efeitos mais ostensivos, convincentes e difíceis de explicar.

Dentre os diversos episódios em que investigadores participaram de sessões mediúnicas junto a Eusapia, um ganhou notável destaque, tanto na época como várias décadas depois. Trata-se da investigação às vezes chamada de Nápoles, 1908, publicada em um artigo conhecido como o Relatório Feilding, de 260 páginas, nos Proceedings da SPR (Sociedade de Pesquisa Psíquica britânica),1 por Everard Feilding, W.W. Baggally e Hereward Carrington. Além de ser um experimento com grande quantidade de fenômenos ostensivos, a pesquisa impressionou e ainda impressiona pela exaustividade, a metodologia e o detalhamento. Não por acaso, o Relatório Feilding ganhou ainda mais fama pelos debates e discussões que provocou 8 décadas depois.

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Proceedings da Sociedade de Pesquisa Psíquica, v. 23, 1909

A maioria dos leitores acaba tomando contato com a investigação de Napoles 1908 por meio de fontes secundárias, ou seja, artigos que comentam o Relatório Fielding, não o próprio.2 Por isso, é esta a ordem que desenvolverei nesse post. Quero que você tenha contato com o “Relatório Fielding” a partir da narrativa predominante na atualidade, que é muito persuasiva, mas também bastante diferente da narrativa dos experimentadores ou de outros pesquisadores contemporâneos. Após contato com essa primeira narrativa, apresentarei a segunda, e você poderá perceber como é difícil a tarefa de buscar a “verdade” por trás dos debates científicos.

 

Os experimentos

Antes de entrar na controvérsia, segue abaixo uma breve descrição da condução dos experimentos, para facilitar a contextualização:

  • Feilding e Carrington viajaram a Nápoles, onde encontrariam Palladino, para realizarem ao menos 5 sessões mediúnicas (podendo se estender para 10, se solicitado). No total foram 11 sessões. Hospedaram-se em dois quartos adjacentes, no 5° andar do Hotel Vittoria.
  • As sessões eram conduzidas no quarto de Feilding (na ilustração: “F’s(seance) room”). A partir da quarta sessão, um terceiro pesquisador juntou-se ao time – W. W. Baggally -, hospedando-se no quarto (“B’s room”) livre adjacente ao de Feilding. Eventualmente, outros participantes e testemunhas também eram convidadas.
  • Cada um dos quartos possuía, obviamente, uma porta externa, que conduzia ao corredor do hotel, uma janela com varanda na parede oposta, e uma porta interna em cada uma das paredes laterais, a qual permitia a circulação interna entre os quartos.
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Planta baixa dos quartos de hotel dos pesquisadores (Baggally, Feilding e Carrington).

  • No quarto central, onde foram realizadas as sessões mediúnicas, foram retirados os móveis, permanecendo apenas a cama de Feilding, uma cômoda com gavetas e um sofá, próximos à entrada do quarto. No extremo oposto ficava a mesa com Eusapia e os 3 pesquisadores, próximos a uma das quinas do quarto, onde foi montado um pequeno “gabinete” feito com duas cortinas presas pelo alto, formando um espaço triangular, dentro do qual os pesquisadores colocaram alguns instrumentos musicais de brinquedo, uma mesinha e outros acessórios. Neste gabinete seriam produzidas a maior parte dos efeitos físicos. No centro do quarto ficava Meeson, um taquígrafo que tomava nota de tudo o que era falado durante os experimentos.

Os fenômenos mais diversos aconteceram (que serão comentados ao longo desta série), o que levou os pesquisadores a concluírem muito positivamente a favor da autenticidade dos mesmos. Carrington destaca sua “absoluta convicção da realidade de ao menos alguns dos fenômenos”.3 Para Baggally, “nem meus colegas nem eu temos prova de que [Eusapia] recorreu a fraude na produção de qualquer um dos [470] fenômenos” 4 e as condições “que excluíam todos os meios normais concebíveis de produção dos fenômenos [lhe deram] a forte suposição de que eles foram produzidos de maneira supernormal [termo equivalente a paranormal, nos dias de hoje]”.5 Feilding faz coro à opinião de que “uma larga proporção das manifestações por [todos] presenciadas em Nápoles estavam claramente para além das possibilidades de qualquer forma concebível de ilusionismo”.6

A hipótese do cúmplice

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Richard Wiseman

Em 1992, o psicólogo Richard Wiseman publica uma reconsideração a respeito do Relatório Feilding,7 cujo argumento central é que os pesquisadores não adotaram os controles necessários para evitar que um cúmplice entrasse ocultamente no quarto da sessão e produzisse, ao menos, a maioria dos fenômenos relatados (ou, se adotaram o controle adequado, não o descreveram satisfatoriamente no Relatório).

Nápoles 1908 se destacou pela adoção de controles rigorosos sobre os pés e mãos da médium, o que descartaria a possibilidade de que Eusápia tenha feito os truques por conta própria. Wiseman reconhece que, conforme o próprio relatório menciona, Eusapia fazia, vez por outra, movimentos que dificultavam o trabalho de controle. Entretanto, também reconhece que tais movimentos não seriam capazes de explicar a maior parte dos fenômenos produzidos naquelas circunstâncias. Wiseman prefere, então, refletir sobre uma segunda possibilidade: a de que houvesse um cúmploce, não detectado pelos investigadores, auxiliando Palladino.8

Wiseman argumenta que, se houvesse um cúmplice no quarto ao lado que conseguisse acessar o gabinete (entrando inteiramente ou apenas esticando o braço, por meio de algum fundo falso), isso poderia explicar facilmente algo como 270 dos 470 fenômenos catalogados pelo relatório. Naturalmente, uma análise completa dos movimentos deste possível cúmplice seria extremamente longa e demorada, cabendo a Wiseman, no seu artigo, fundamentar o problema anterior, ou seja, tentar explicar as formas como um cúmplice poderia obter acesso ao gabinete dos experimentos. Sua fundamentação procura resolver 4 pontos principais:

  1. Meios de o cúmplice ter acesso ao quarto de Baggally (Wiseman concentra-se apenas neste quarto, situado no mesmo lado no qual foi montado o gabinete dos fenômenos).
  2. Meios de o cúmplice ter acesso ao gabinete, seja inteiramente ou apenas esticando o braço.
  3. Controle insuficiente dos pesquisadores para notar um cúmplice fazendo truques por trás das cortinas.
  4. Meios de o cúmplice ausentar-se do aposento, durante e após o término das sessões, sem ser detectado.

Vejamos cada uma destas etapas resumidamente:

O cúmplice ter acesso ao quarto de Baggally.

Para entrar nesse quarto, o acesso mais provável seria a porta. Wiseman apresenta possibilidades de que o cúmplice poderia conseguir uma cópia da chave e entrar pela porta. A possibilidade de entrada pela janela foi descartada. Se a entrada pela porta não fosse possível, Wiseman ainda menciona a possibilidade de um alçapão que desse acesso ao quarto.

A partir do quarto de Baggally, o cúmplice ter acesso ao gabinete da sessão (no quarto de Feilding).

Wiseman concentra-se na hipótese de que foi feita alguma adulteração na porta de ligação entre ambos os quartos. Ele nota que esta porta parece ser de madeira maciça, polida. Mas o cúmplice de Eusapia poderia ter feito, secretamente, um painel falso que lhe permitisse entrar e sair de um quarto para outro durante as sessões, sem ser visto.

O controle dos investigadores foi insuficiente para detectar os truques feitos pelo cúmplice por detrás das cortinas.

Wiseman critica os investigadores por terem (aparentemente) ido poucas vezes olhar por trás das cortinas do gabinete à procura de um intruso. Argumenta que a posição das cadeiras, somada à baixa iluminação, dificultaria perceberem a entrada e saída deste cúmplice pelo painel falso na porta.

O cúmplice poderia sair do quarto ou se esconder, a qualquer momento.

Em alguns momentos durante as sessões, Bagally sai e vai para seu quarto. Wiseman argumenta que nesses momentos seria possível ao cúmplice esconder-se (sob a cama ou em algum armário) ou ausentar-se (pela porta ou alçapão) até que Bagally retornasse. E o mesmo poderia ser feito pelo cúmplice ao término das sessões.

As críticas de Wiseman conduzem o leitor à ideia básica de que o Relatório Feilding é – parafraseando o autor – “notável, mas aparentemente inadequado” 9. Neste sentido, o autor procura todas as brechas no relatório que permita a inserção do elemento “fraude”.

Mas a discussão está apenas começando. No mesmo semestre, outros pesquisadores publicam, à revista, respostas a Wiseman. É o que veremos no próximo artigo…


Última atualização: 13 out 2016

Notas

  1. Feilding, E., Baggally, W. W. and Carrington, H. (1909) Report on a series of sittings with Eusapia Palladino. ProcSPR 23, 309-569.
  2. Exemplo pode ser visto no verbete Eusapia Palladino da Wikipedia, no qual o Relatório Fielding é comentado sem referência ao artigo original, mas basicamente através de análises de autores céticos escritas mais de meio século depois do experimento. Além disso, não se fazem referências a nenhum dos pelo menos 6 artigos publicados em resposta aos céticos, que mostraremos nesta seção, de Alfonso Martinez-Taboas, David Fontana, Margarita Francia e Mary Rose Barrington.
  3. Feilding et al., op cit, p. 555
  4. op cit, p. 559
  5. op cit, p. 560
  6. op cit, p. 568
  7. Wiseman, R. (1992). The Feilding Report: A reconsideration. Journal of the Society for Psychical Research, 58 (826), 129-152. O artigo completo traduzido para o português pode ser encontrado em http://obraspsicografadas.org/2014/o-relatrio-de-fielding-uma-reconsiderao-1992-por-richard-wiseman-parte-1/
  8. As demais possibilidades são excessivamente arriscadas para Wiseman e também foram descartadas por críticos anteriores, a dizer: (1) os três pesquisadores, o taquígrafo e participantes eventuais foram vítimas de uma alucinação coletiva, simultânea, durante 11 dias; (2) os três pesquisadores, o taquígrafo e participantes eventuais foram, eles mesmos, cúmplices da farsa, arriscando suas reputações, financiados pela SPR em uma viagem longa e custosa, sem deixar qualquer pista sobre esta fraude ao longo da História; ou (3) Eusapia estava produzindo pelo menos alguns fenômenos inexplicáveis por nossa compreensão do mundo.
  9. Wiseman, op cit, p. 151
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2 comentários

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