Casos que Marcaram a Psicanálise · Lacaniana
O caso que inaugurou a psicanálise lacaniana — delírio, escrita e o ato como única linguagem que o Outro ouviu.
Adilson G. Costa · junho de 2026
Nem toda perseguição vem de fora.
Marguerite Pantaine era culta, escritora, mãe, funcionária pública. Desenvolveu ao longo dos anos uma convicção crescente: certas mulheres tramavam contra ela. Ameaçavam seu filho. Queriam destruir sua reputação. As perseguições se expandiram — do círculo íntimo para figuras públicas, do sussurro para a certeza.
Numa noite de 1931, na entrada de um teatro em Paris, ela agrediu fisicamente a atriz Huguette Duflos. E então — paradoxo que marcaria para sempre a história da psicanálise — a angústia cessou. O ato, em vez de intensificar o sofrimento, o interrompeu.
Foi esse caso, estudado por um jovem psiquiatra chamado Jacques Lacan, que se tornaria o núcleo de sua tese de doutorado e o ponto de partida de toda uma teoria sobre a psicose, o delírio e a função da linguagem na constituição do sujeito.
O que Lacan encontrou em Aimée — nome fictício dado à paciente — não era simplesmente uma mente perturbada. Era uma estrutura. O delírio não era caos: era uma tentativa de organização, uma construção que o sujeito erguia para dar sentido a algo que a linguagem ordinária não conseguia sustentar.
A hipótese lacaniana central é a de que havia ali um ponto de forclusão — uma falha na inscrição simbólica do Nome-do-Pai que deixava o sujeito exposto ao retorno do que não pôde ser simbolizado, agora vindo de fora, na forma de perseguição. O delírio, nessa leitura, não era ruptura com a realidade — era uma suplência, uma tentativa de remendar o que a estrutura simbólica não havia conseguido costurar.
É por isso que o ato produziu alívio. Ao agredir a atriz, Aimée encontrou, pela via do real, uma resposta que a linguagem não havia podido dar. O Outro finalmente reagiu — e com essa reação, algo se amarrou.
Há um detalhe no caso que nenhuma escola ignora: Aimée escrevia. Romances, cartas, textos que espelhavam seu sofrimento psíquico de um modo que ela própria não conseguia reconhecer. A ficção era um espaço onde o inominável circulava — velado, deslocado, mas presente.
Winnicott leria essa escrita como espaço transicional: um território entre o dentro e o fora onde a angústia encontrava uma forma de existir sem explodir. Quando esse espaço se tornou insuficiente para conter o sofrimento, o ato ocupou seu lugar.
Bion sugeriria que os elementos beta — experiências brutas, sem metabolização possível — precipitaram-se em acting out precisamente porque a função alfa, a capacidade de transformar experiência em pensamento, não havia sido suficientemente desenvolvida naquele contexto. A escrita produzia elementos alfa, mas não o suficiente.
A pergunta que o caso deixa suspensa é lacaniana: a quem esses romances foram escritos? Qual Outro eles convocavam? É possível que o filho dado à adoção — núcleo de perda que emergiria apenas tardiamente na elaboração — habitasse essas páginas sem que Aimée soubesse.
O caso Aimée é, entre os grandes casos da psicanálise, aquele onde a tensão entre as escolas é mais explícita — porque o próprio Lacan o usou para demarcar sua diferença em relação à tradição.
Freud reconheceria no mecanismo um padrão familiar: impulsos ou afetos intoleráveis — possivelmente ligados à culpa pela entrega do filho à adoção — que, em vez de serem assimilados pelo eu, são projetados e retornam de fora como ameaça persecutória. A perseguição seria o avesso da culpa.
Klein leria o perseguidor externo como continente para objetos internos cindidos. A atriz agredida seria um mau objeto externalizado — e o ato agressivo, uma tentativa de expulsão. O alívio subsequente seria o esvaziamento temporário da tensão persecutória interna.
Käes acrescentaria uma dimensão que as leituras individuais deixam escapar: as "perseguidoras" do círculo social poderiam ser portadoras de transmissões intergeracionais que Aimée encarnava sem poder representar. O que ela perseguia, ou era perseguida, poderia não ser inteiramente seu.
A tensão mais produtiva, no entanto, é entre Klein e Lacan: Klein localiza o ato como descarga de angústia persecutória vinculada a objetos parciais internos, privilegiando a dinâmica afetiva. Lacan, ao contrário, lê o mesmo ato como intervenção no real que cumpre uma função estrutural — não descarga, mas amarração. A diferença não é de grau: é de paradigma.
Algumas perguntas que o caso de Aimée coloca permanecem sem resposta definitiva — e é precisamente essa abertura que o torna clinicamente fértil.
A escrita ficcional e o delírio eram instâncias paralelas de elaboração, ou a ficção operava como contenção precária que, ao falhar, deixou o campo livre para o delírio se intensificar? Quando um paciente cria — escreve, pinta, compõe — estamos diante de um espaço transicional que organiza, ou de uma formação que apenas adia?
O filho dado à adoção constitui o núcleo traumático central, ou é ele próprio uma formação que recobre uma perda ainda mais anterior? Há camadas de transmissão no caso que a elaboração disponível não alcança.
E a questão lacaniana de fundo — se há forclusão estrutural ou uma falha localizada e circunstancial — permanece deliberadamente aberta. Lacan nunca a fechou. E talvez não devesse.
Aimée foi internada, elaborou sua história, e foi solta. Voltou a escrever. O filho dado à adoção, soube-se depois, tornara-se um escritor. Marguerite Pantaine morreu sem jamais ter lido os textos que Lacan escreveu sobre ela.
Nem toda perseguição vem de fora. E nem todo grito precisa de palavras para ser ouvido.
Sobre o autor
Adilson G. Costa é psicanalista e consultor organizacional. Esta série integra o projeto editorial do ArquivoPsi — plataforma de elaboração clínica psicanalítica com suporte de IA.
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