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Casos que Marcaram a Psicanálise · Freudiana

Anna O. e a Invenção da Palavra que Cura

O caso que inaugurou a pergunta: o que faz o corpo quando a palavra falha?

Adilson G. Costa · 3 de junho de 2026

Anna O. no divã — ilustração do caso clínico

Uma jovem inteligente e articulada começa a apresentar sintomas estranhos enquanto cuida do pai gravemente doente. Em determinados momentos, perde a capacidade de falar sua língua materna. Desenvolve paralisias sem causa neurológica aparente, alterações visuais, episódios de confusão. Nada no corpo explica o corpo.

É durante as conversas terapêuticas com Josef Breuer que algo começa a se revelar: os sintomas surgem associados a lembranças emocionalmente intensas que nunca haviam sido expressas. Quando a paciente relata certas cenas — e os afetos que as acompanham — alguns sintomas diminuem temporariamente. Ela mesma nomeia a experiência: uma espécie de limpeza da chaminé, em que palavras conseguem aliviar aquilo que o corpo vinha carregando em silêncio.

Este caso, que ficaria conhecido como o de Anna O., tornou-se um dos marcos fundadores da psicanálise — não porque tenha inaugurado uma cura, mas porque abriu uma pergunta que até hoje nos habita: o que faz o corpo quando a palavra falha?

O corpo como escrita

A leitura freudiana do caso é precisa em sua orientação. O corpo, nessa perspectiva, funciona como palco privilegiado de algo que não encontrou via de elaboração psíquica. As paralisias, as alterações visuais, a confusão e — detalhe especialmente sugestivo — a perda da língua materna constituem, numa leitura possível, uma espécie de escrita somática de afetos que não puderam ser nomeados no momento de seu surgimento.

A situação de cuidado ao pai gravemente doente aparece como eixo organizador dos sintomas. É precisamente nesse contexto de proximidade com o sofrimento e a morte do outro que algo se precipita no corpo da paciente. Como Freud observa em Estudos sobre a Histeria, em parceria com Breuer, a cena traumática mais grave está associada à figura paterna moribunda — e é ao redor dessa cena que os sintomas se organizam.

A "limpeza da chaminé" — expressão criada pela própria Anna O. — aponta para uma hipótese que o método catártico procurava sustentar: a palavra tem uma função de descarga. O sintoma se sustenta enquanto o afeto correspondente permanece sem expressão. Como Freud e Breuer formulam nos Estudos sobre a Histeria, os sintomas histéricos só podem emergir com a cooperação das lembranças — e é precisamente a memória afetivamente carregada, e ainda não narrada, que mantém o sintoma vivo.

Leituras em tensão

O caso de Anna O. não pertence a uma única escola — e é exatamente por isso que continua sendo tão fértil.

Da perspectiva kleiniana, pode-se pensar que a posição esquizo-paranoide está operando de modo relevante. O corpo sofrente do pai poderia estar associado a fantasias de destruição ou de culpa primitiva, e os sintomas somáticos representariam uma tentativa de controle mágico sobre a situação — um não-saber que protege de algo insuportável.

Winnicott permitiria formular uma hipótese diferente: o ambiente de cuidado ao pai colapsa as condições de holding que a própria paciente precisaria para si mesma. Um falso self se organiza ao custo do corpo — ela cuida do outro enquanto algo nela não encontra quem a cuide. O sintoma seria o preço da devoção.

Bion acrescentaria uma torção importante. Para ele, o simples relato catártico seria insuficiente sem um processo de transformação das experiências brutas em pensamento simbólico. O que Anna O. experimenta poderia ser compreendido como um excesso de elementos beta que encontram saída somática por falta de uma função alfa suficientemente operante naquele contexto. Falar alivia, mas não necessariamente transforma.

Lacan oferece talvez a leitura mais provocante. A perda da língua materna é, nessa perspectiva, especialmente significativa: algo da ordem da fala como inscrição simbólica falha. O sintoma histérico pode ser lido como um endereçamento ao Outro — uma demanda de reconhecimento que o discurso convencional não conseguiu formular. Anna O. passa a falar apenas em inglês, língua estrangeira. Como se apenas uma língua sem a memória afetiva da infância pudesse suportar o que havia para ser dito.

Käes acrescenta uma dimensão que as demais escolas tendem a subestimar: os sintomas podem carregar não apenas conflitos individuais, mas contratos narcísicos e alianças inconscientes com o grupo familiar. O sofrimento de Anna O. poderia ser lido também como expressão de algo transmitido ou delegado pela família.

Uma tensão que vale manter

Entre todas as divergências teóricas que o caso suscita, uma merece destaque especial: a tensão entre o modelo catártico de Freud e Breuer — centrado na descarga afetiva como mecanismo terapêutico — e a perspectiva bioniana, para a qual o simples relato seria insuficiente sem um processo de transformação.

Nos Estudos sobre a Histeria, Freud e Breuer valorizam a reprodução da cena traumática como condição para a eliminação do sintoma. Bion, décadas depois, sugeriria que é a capacidade de rêverie que precisa ser desenvolvida, e não apenas a verbalização em si. Esta tensão não foi resolvida. E talvez não deva ser.

O que o caso ainda nos ensina

A perda da língua materna continua a nos interpelar. Seria uma regressão a um estado anterior à simbolização? Uma recusa do simbólico? Ou um endereçamento ao Outro que apenas uma língua estrangeira consegue formular sem o peso da censura afetiva?

Anna O. não foi curada. Breuer encerrou o tratamento em circunstâncias controversas. Bertha Pappenheim — seu nome real — tornou-se, anos depois, uma importante ativista social e feminista. O que o sintoma não pôde elaborar, a vida encontrou outro caminho para expressar.

Isso também é psicanálise.

Sobre o autor

Adilson G. Costa é psicanalista e consultor organizacional. Esta série integra o projeto editorial do ArquivoPsi — plataforma de elaboração clínica psicanalítica com suporte de IA.

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