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Casos que Marcaram a Psicanálise · Kleiniana

Dick: O Menino que Não Sabia Brincar

O caso fundador da técnica kleiniana com crianças — repetição, simbolização e o que acontece quando brincar ainda não é possível.

Adilson G. Costa · junho de 2026

Dick — caso clínico de Melanie Klein

Antes de falar, a criança precisa conseguir brincar.

Dick tinha quatro anos quando chegou ao consultório de Melanie Klein. Era uma criança diferente das outras — não no sentido que os adultos usam para suavizar o que não conseguem nomear, mas diferente de um modo que perturbava. Não brincava. Não fantasiava. Não construía narrativas. Movia um trem pelo mesmo trajeto, vezes sem conta, sem personagens, sem história, sem envolvimento emocional visível.

O mundo ao redor parecia não o alcançar. E ele parecia não querer alcançar o mundo.

O que Klein encontrou nesse menino silencioso não foi ausência — foi uma presença sufocada. Algo que não havia ainda encontrado a forma de existir como experiência psíquica. E a pergunta que o caso coloca, e que ainda ressoa nas salas de atendimento de crianças, é: o que acontece quando brincar ainda não é possível?

A repetição que não era vazia

O trem de Dick percorria sempre o mesmo trajeto. Sem desvios, sem personagens, sem narrativa. Para um observador desatento, poderia parecer empobrecimento, indiferença, ausência de vida interior.

Klein leu de outro modo. A repetição mecânica não era vazio — era contenção. Algo subjacente à brincadeira aguardava um continente que ainda não havia sido oferecido. A criança não estava ausente: estava suspensa.

O momento de inflexão veio quando Klein ofereceu uma interpretação ligando o movimento do trem ao interior do corpo materno. Dick interrompeu o automatismo. A brincadeira mudou — discreta, provisoriamente, mas mudou. Como se um significante houvesse encontrado um lugar onde antes havia apenas movimento sem sentido.

Klein descreveu o caso Dick em seu artigo de 1930, "A Importância da Formação de Símbolos no Desenvolvimento do Ego" — um dos textos mais densos e provocadores da psicanálise com crianças. A tese central: a inibição da capacidade de simbolizar não é consequência de ausência de vida fantasística, mas de sua presença excessiva e aterrorizante. O ego, incapaz de tolerar a ambivalência da posição depressiva, congela — e com ele, o brincar.

Leituras em tensão

O caso Dick é um campo de divergência produtiva entre as escolas — cada uma ilumina um aspecto diferente do que estava em jogo naquela sala de atendimento.

Klein localizou a dificuldade na entrada prematura e não elaborada na posição depressiva. O ego de Dick, sem recursos para tolerar a ambivalência, bloqueou o acesso à fantasia — e com ela, ao símbolo, ao brincar, à linguagem. A interpretação direta do conteúdo inconsciente, arriscada e sem os preparativos que outros analistas exigiriam, foi a via de acesso que ela escolheu. E funcionou.

Bion permitiria pensar o mesmo fenômeno de outro ângulo: a repetição mecânica como consequência de uma deficiência na função alfa — a capacidade de transformar experiências emocionais brutas em elementos passíveis de ser sonhados e simbolizados. O trem que percorre o mesmo trajeto seria descarga sem metabolização, elementos beta buscando uma saída que o aparelho psíquico ainda não conseguia oferecer. A interpretação de Klein teria operado como função continente — não apenas pelo conteúdo, mas pela experiência de ser compreendido.

Winnicott deslocaria o foco do conteúdo para a qualidade do brincar em si. A pergunta não seria "o que o trem representa", mas "Dick está conseguindo brincar de verdade?" — e a resposta seria não. O espaço potencial, o território entre o dentro e o fora onde a criatividade emerge, ainda não havia se constituído. A interpretação de Klein, nessa leitura, teria operado menos pelo conteúdo e mais pelo holding que ofereceu — a experiência de um ambiente que sustenta sem invadir.

Lacan veria na ausência de narrativa e personagens um índice de que a criança ainda não havia encontrado acesso à cadeia significante que organizaria sua relação com o Outro. A interpretação de Klein teria introduzido um significante — o interior do corpo materno — capaz de provocar um primeiro enganchamento no simbólico. O trem não era apenas um objeto: era um significante em busca de uma cadeia.

Käes acrescentaria uma interrogação que o material clínico disponível não ilumina diretamente: o que o sistema familiar deposita nessa criança? Em que medida a dificuldade de simbolização de Dick ecoa algo que não pôde ser dito ou sonhado no campo intersubjetivo que o precedeu?

Uma tensão que o caso não resolve

A interpretação de Klein funcionou — mas por quê? Essa pergunta divide as escolas de modo que talvez nunca seja completamente resolvido.

Para Klein, o conteúdo foi decisivo: nomear o interior do corpo materno tocou diretamente no núcleo fantasístico que organizava o sofrimento de Dick. Para Bion, o que importou foi a função continente — a experiência de ter seus elementos beta recebidos e transformados por um outro que os suportou sem se desfazer. Para Winnicott, foi o holding — a qualidade do ambiente que a analista ofereceu, mais do que o que ela disse.

Essas não são leituras compatíveis. São paradigmas diferentes sobre o que cura em psicanálise. E o caso Dick, por sua economia clínica quase minimalista, torna essa tensão mais visível do que qualquer outro.

O que o caso ainda nos ensina

A abertura observada ao fim da sessão era discreta e provisória. Klein sabia disso. A pergunta que ela deixou suspensa — e que qualquer analista que trabalha com crianças precisa sustentar — é se aquela abertura representava o início de uma capacidade de sonhar, ou uma abertura pontual que ainda não havia encontrado sustentação interna suficiente para se consolidar.

Permanecem abertas algumas interrogações que o material não resolve: o que sustenta a repetição — seria ela uma tentativa de domínio de uma angústia sem nome, ou uma forma de manter o mundo em suspenso, evitando o encontro com algo intoleravelmente vivo?

O que a analista experimenta contratransferencialmente durante os longos momentos de repetição mecânica — tédio, inquietação, desejo de interpretar — pode ser um dado clínico relevante. E a pergunta de Bion permanece suspensa: a abertura observada ao fim da sessão representa o início de uma capacidade de sonhar, ou foi uma abertura pontual?

Dick cresceu. Tornou-se, segundo relatos, uma pessoa funcional — o que, dependendo da escola teórica que se adote, pode ser lido como confirmação da eficácia da técnica kleiniana, ou como evidência de que o desenvolvimento encontrou seus próprios caminhos independentemente da análise.

Antes de falar, a criança precisa conseguir brincar. E antes de brincar, precisa de alguém que suporte ficar com ela no silêncio do trem que não para.

Sobre o autor

Adilson G. Costa é psicanalista e consultor organizacional. Esta série integra o projeto editorial do ArquivoPsi — plataforma de elaboração clínica psicanalítica com suporte de IA.

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