Casos que Marcaram a Psicanálise · Freudiana
Um sonho recorrente, lobos silenciosos e uma pergunta que a psicanálise ainda não fechou.
Adilson G. Costa · 3 de junho de 2026
Da janela do quarto, na quietude da infância, um menino vê lobos.
São brancos, imóveis, silenciosos. Estão pousados no alto de uma árvore e olham para ele. Não atacam, não falam, não se movem. Apenas olham. E esse olhar — sem ameaça explícita, sem gesto, sem voz — produz um terror que nenhuma explicação consegue dissolver.
O sonho se repete. Anos depois, já adulto, o paciente chega à análise com Freud trazendo esse sonho como núcleo de sua angústia. O trabalho que se segue tornará este um dos casos mais comentados da história da psicanálise — não porque o sonho tenha sido decifrado de uma vez por todas, mas porque ele revelou algo sobre a natureza do inconsciente que ainda hoje resiste a ser completamente nomeado.
O ponto de partida da análise freudiana é a distinção entre o conteúdo manifesto do sonho — os lobos brancos na árvore — e os pensamentos oníricos latentes que esse conteúdo encobre. Como Freud formula em A Interpretação dos Sonhos, as experiências da infância desempenham seu papel mesmo em sonhos cujo conteúdo jamais levaria a suspeitar disso. O sonho funciona como um ponto de condensação: imagens aparentemente simples carregam camadas de experiência que só a associação livre pode começar a desdobrar.
No trabalho com o paciente — Sergei Pankejeff, que ficaria conhecido pelo pseudônimo que o próprio sonho lhe deu — Freud propõe que o terror produzido pelos lobos remete a uma cena primitiva: a observação, na infância, do coito parental. Os lobos imóveis seriam uma inversão e um deslocamento dessa cena — o olhar que aterroriza substitui o movimento que não pôde ser compreendido.
É uma leitura audaciosa. E, como toda leitura audaciosa, ela abre tantas perguntas quanto fecha.
O caso do Homem dos Lobos é um campo de batalha teórico produtivo — cada escola encontra nele algo que confirma e algo que a desafia.
Klein leria os lobos em posição elevada e ameaçadora como objetos internos persecutórios — fragmentos de uma posição esquizo-paranoide mal elaborada, em que o terror do olhar do outro é inseparável de uma destrutividade projetada. O que aterroriza não está apenas lá fora: está dentro, condensado numa imagem que o sonho não consegue dissolver porque a perseguição é interna.
Winnicott deslocaria a ênfase: se o ambiente precoce não ofereceu holding suficiente para metabolizar certas ansiedades primitivas, o sonho se torna o espaço de retorno compulsivo a algo que não encontrou continência. A repetição do sonho não seria apenas sintoma — seria também uma busca. O paciente retorna àquela janela noite após noite porque ainda procura alguém capaz de ficar com ele diante do terror.
Bion convidaria a pensar na função alfa. Se as experiências precoces não puderam ser transformadas em elementos passíveis de pensamento, o sonho é o lugar onde elementos beta continuam a fazer pressão sem se tornar representáveis. O terror sem palavras, nessa leitura, não é simbólico: é anterior ao símbolo. E é exatamente por isso que resiste.
A leitura lacaniana produz aqui uma torção decisiva. Enquanto Freud, Klein e Winnicott tendem a buscar na cena infantil o referente do sonho, Lacan desloca a pergunta: o que esses lobos representam como significantes do desejo do Outro sobre o sujeito?
O silêncio dos lobos, sua imobilidade, o olhar que aterroriza sem palavras — isso poderia ser lido como o encontro com o gozo opaco do Outro, anterior à cadeia significante. Algo que não se interpreta, mas que marca. O paciente não sabe o que os lobos querem dele. E talvez seja precisamente esse não-saber que produz o terror mais fundamental.
Käes vai além do sujeito e da cena familiar imediata: o terror pode não ser inteiramente do paciente. Pode ser carreado por algo da ordem do pacto denegativo familiar, de uma transmissão psíquica intergeracional. O que os lobos carregam que não nasceu com ele?
O Homem dos Lobos foi analisado por Freud, depois por Ruth Mack Brunswick, e permaneceu em análise ou em contato com analistas por décadas. A análise nunca chegou a um fim claro. Pankejeff viveu até os 92 anos, e a última vez que falou sobre sua análise com Freud, ainda expressava ambivalência — gratidão e ressentimento, convicção e dúvida.
O sonho dos lobos, ele disse, nunca desapareceu completamente.
E uma pergunta que vale para qualquer analista diante de um material que "confirma" suas hipóteses: o que, nesse sonho, ainda surpreende? O que ainda escapa? É frequentemente aí — no que resiste à formulação do analista — que o inconsciente fala com mais força.
Há um detalhe que nenhuma escola esgota: os lobos são silenciosos. Não rugem, não ameaçam, não comunicam nada. E é exatamente esse silêncio que aterroriza.
Essa distinção pode ser clinicamente relevante para diferenciar uma angústia de castração — simbolizável, trabalhável na transferência — de algo mais próximo de um terror sem nome, no sentido bioniano. Pois nem todo silêncio é ausência de palavra. Alguns silêncios são a marca de algo que nunca chegou a ter uma.
O Homem dos Lobos nos lembra disso toda vez que voltamos ao caso.
Sobre o autor
Adilson G. Costa é psicanalista e consultor organizacional. Esta série integra o projeto editorial do ArquivoPsi — plataforma de elaboração clínica psicanalítica com suporte de IA.
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